quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Garota interrompida
O Ministério da Saúde adverte: Saci Pererê não é bom menino
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
O Rap do Menino Invisível
Atropelada na rua, a mãe nunca acordou.
E na memória do menino miúdo ficou.
Era como bicho solto aquele menino Pixote.
Foi aprender na escola e ensinar no Hip Hop.
Dançou break na rua, cantou rap na rua, pintou grafite na rua.
Fez leitura nos livros, se guiou nos mestres. Luther King, Muhammed Ali, Malcom X.
Se formar na faculdade foi outra grande vitória.
De camelô pra funcionário, de menino pra homem.
Ele escapou daquela sina, mas não esquece do ontem.
Quer conhecer sua raiz, seu sobrenome.
Quer viajar pro Ceará.
Na periferia de si mesmo
"Se eu não acreditasse na minha própria mãe, ia acreditar em quem? Só era a gente no mundo". A pergunta foi uma resposta à outra, feita na entrevista. Sérgio lembra apenas de algumas coisas que a mãe repassou sobre a vida deles dois. Ela falou que foi expulsa de casa, no Ceará, porque engravidou. Contou que abortou, que fugiu para o Recife. Disse que sabia falar três idiomas, que viajou no mundo e foi torturada porque era militante política. Confessou que Sérgio nasceu de um "romance com um gringo americano que veio num navio ao Recife, partiu e nunca mais voltou". O nome dela: Sara Cavalcante Matos. "Ela era inteligente, politizada demais".
Sara era prostituta. "Ela não me falava, mas eu via que ela saía toda a noite para o Porto do Recife", lembra Sérgio. "Quando ela voltava com dinheiro para casa, ela me arrumava todo. Quando não, eu apanhava. Acho que ela descontava a dor e a revolta do mundo em mim". Era 15 de novembro de 1982 - data gravada a ferro quente na memória dele -, quando Sara foi atropelada, em frente ao porto. "Eu fiquei esperando em casa. Mas ela nunca mais voltou". O único documento familiar que restou nas mãos de Sérgio foi o registro de nascimento da mãe. Pelo papel, ela nasceu em 25 de dezembro de 1947, na cidade de Sobral, no Ceará. Era filha de Zilka e neta de Emílio e Zuleika.
Sara era negra. Os olhos verdes de Sérgio, diz ele, são herança do pai que ele não conheceu. São também os olhos de gato e muitas (sobre)vidas. "Eu era bonitinho, afilado, todo mundo queria ficar comigo, depois que Sara morreu. Eu costumo dizer que fui salvo pelos olhos verdes e pela pele branca. Acho que se eu fosse negro, teria menos chance. Mas, de verdade, o que me salvou foi a solidariedade das comunidades carentes", observa Sérgio. E o menino passou de mão em mão, até os 21 anos de idade, quando achou que já podia se sustentar. Trabalhou de camelô, vendendo pilha, "muamba" e veneno de rato. Tinha ponto na Rua da Praia, Rua do Rangel e Beco do Veado, no Centro da cidade. "Só comia se tivesse dinheiro. Foi minha primeira profissão, onde aprendi a encarar as pessoas". Mas as pessoas não viam Sérgio.
O futuro sociólogo se fez menos invisível quando entrou numa sala de aulas. "A única coisa boa no tempo sem casa foi uma família me colocar na escola, quando eu já tinha 10 anos", fala. Sérgio morou no Coque, Rio Doce, UR 2, Vasco da Gama. No Ibura, na escola estadual Lagoa Encantada, ele fez até o 3º ano. "Difícil não cair no tráfico. Até hoje vivo tenso, rude, com medo de passar fome de novo".
"Tentei passar logo no vestibular e não consegui. Mas eu não podia desistir. Não tinha alternativa. Aí, estudei mais um ano com o que tinha, português, literatura e história", relembra. "Escolhi Sociologia porque conheci muita gente na rua que se preocupava com os movimentos sociais do país". Sérgio se formou na UFRPE, em 2003, e prometeu aosprofessores que "até os 50 anos de idade" terá o doutorado. Ficou conhecido por levar a cultura de rua à academia e vice-versa. Daí o codinome Sociólogo da Favela. "De cara, as pessoas pensam que eu faço apologia à favela. Se me conhecem, entendem que a favela é a minha história de vida. Tudo que ganhei veio das ruas".
Adolescente, Sérgio imitava o grupo Menudo com outros jovens. "A gente dançava nos clube e ganhava uns trocados. Foi quando eu percebi que a arte seria um caminho para não me perder", conta. "Nessa época, o break era muito forte no Brasil. Fui me encontrando nessa cena, criando grupos e um espaço para o hip hop na cidade". Com a dança, a música e o grafite, os pilares do movimento cultural, Sérgio hoje ensina como se constrói um cidadão. Está à frente da Associação Metropolitana do Hip Hop em Pernambuco, único filho que botou no mundo. A lida com as questões da periferia rendeu a Sérgio uma profissão na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. É coordenador de cultura. Cria projetos de educação para jovens de 16 a 24 anos, em situação de vulnerabilidade social. Jovens que poderiam repetir a história dele.
Falta ao Sociólogo da Favela fazer par com ele mesmo. Falta a casa. Falta a família. Sérgio mora na Avenida Dantas Barreto, junto com o amigo rapper Tiger. "Enquanto não tiver meu espaço, vou achar que continuo perambulando, como quando era menino. Ainda vou encontrar nem que seja um parente em Sobral. É um buraco existencial. Um jeito de reconhecer a minha humanidade". Sérgio quer viajar para o Ceará. Quer fazer outra rima com o vazio, refletido nos olhos. Os olhos verdes que já foram a redenção e hoje são solidão. Quer sair da periferia dele mesmo.
domingo, 5 de outubro de 2008
Debaixo dos urubus
A mãe e o medo
A família de Andréa Mercês, de 33 anos de idade, é uma das 219 do Morro do Cuscuz cadastradas na Prefeitura de Olinda, em 2003. A mulher, três filhos menores e o companheiro moram em uma das poucas casas em alvenaria do lugar. Mas a miséria com que convivem tira a graça de quase tudo. As aulas de música da professora Ruby dão um tanto de paz à mãe e diversão aos meninos. O mais velho, de 12 anos, já sabe de cor os versos da primeira canção que conheceu dia desses, "Falai pelas Montanhas". A menina, filha do meio, tem outro talento. Aprende taekwondo, arte marcial que já lhe deu medalha.
A renda da família, conta Andréa, vem da Bolsa Família (R$ 112) e da "ôia" do companheiro, do bico como ajudante de pedreiro. Nada certo. "Faz cinco anos que eu moro aqui, viu? Só que pra mim é muito mais. A gente aqui só tem a Deus. Aqui, a violência, as drogas, essas coisas, começam desde cedo. Tenho medo pelos meus filhos", fala a mãe, na porta da casa de dois cômodos - sendo um deles a cozinha, ondedormem as crianças, dividindo um beliche. O quimono do taekwondo fica dobradinho no guarda-roupas coletivo, no quarto do casal. O banheiro, que não existia quando a família chegou, foi construído aos poucos, com retalhos de cerâmica e uma pia quebrada que achou no lixo.
Andréa aprendeu a escrever o próprio nome há pouco tempo. Nem o da filha - única da casa que aprendeu a ler de verdade - sabe ainda. As crianças estão na escola. "Ganhei a formatura faz um mês. Meu sonho é aprender matemática, porque antes de colocar um produto no cabelo, é bom saber ler, da quantidade, do tempo", fala a mãe, que, para não ver os filhos com fome, cobra dois reais por uma escova no cabelo das mulheres da vizinhança. Tem chapinha e secador, que conseguiu comprar à prestação. "Eu faço o máximo, para não viver na miséria". Nesse dia, o almoço e o jantar foram feijão preto e cuscuz.
O menino e o entulho
Um facão preso na canela, para cortar os entulhos, meião até os joelhos, para não pegar "germes", e boné, apenas porque encontrou no lixo. É assim que trabalha Joaquim (nome fictício), de apenas 15 anos de idade, no Aterro Controlado de Olinda. Luvas não usa porque atrapalha a "bagulhagem", fala o menino, cuja experiência vem dos 10 anos. Por cada quilo de plástico que consegue bagulhar ou catar, ganha 35 centavos. No final de cada semana, diz o menor, chega a tirar R$ 60 - equivalente a 20 quilos ou cerca de 370 garrafas PET. Parte do apurado fica com a mãe, que cria mais três filhos. O padastro e o irmão fazem o mesmo trabalho. A casa da família, aliás, tem vista para o aterro. Dali para os montes de lixo é um pulo. "Venho todo dia. Tem até noite que eu venho, porque tem pouca gente", explica o menino. Nesse dia, havia juntado 40 quilos de plástico, desde às quatro da manhã. Joaquim está fora da escola desde o ano passado. Não sobra tempo nem cabeça para a música da professora Ruby. Vez por outra, vê gente brigando, puxando faca por material. Apenas dois policiais militares, por turno, guardam o lugar. O menino é apenas um dos menores na bagulhagem. Na placa fixada no portão de acesso ao lugar, um contra-senso: "proibida a entrada de crianças e adolescentes".
Foto: Cecília Sá Pereira.
domingo, 21 de setembro de 2008
Без перевода, obrigada
Nem me pergunte o nome deste senhor aí em cima e embaixo, que não sei responder – nem saberei, infelizmente. Conheci – posso assim dizer apesar de ignorar a sua história - em São Petersburgo, cidade da Rússia cheia de armadilhas para os olhos. E de contradições daquelas que sacodem a gente lá para o centro da vida, para dentro das páginas amarelas, cheirando à estante de madeira, desgastadas por traça. Em pé na calçada – sempre um bom lugar para espiar o cotidiano - estava este homem, quando fiz as fotos, em julho deste ano, alto verão. Ficava na Avenida Nevsky, uma versão da 5 Avenida de Nova York. Lojas chiques, caras, de grifes importadas, americanas, italianas .jpg)
e francesas vendiam as modinhas da estação. Foi, talvez, a única vez na viagem que não precisei do cirílico – aquela mistura de grego com hebraico da escrita russa - para ler as fachadas. GAP, Valentino, Dior... Bom, mas o que queria mesmo era saber o que este homem segurava nas mãos. Será que ele vendia algo também? De frente para ele, toda forasteira, travei. Somente percebi que um dos livros era um romance de espionagem - dava para ver pela capa. Já o outro eu soube a muito custo, depois de obter o livro de segunda mão - mais por instrumento de aproximação com o homem do que pelo conteúdo - e consultar Anna, a recepcionista do hotel onde fiquei. Eu havia trazido A História de São Petersburgo. Claro que valia saber de "Pedro O Grande", da aristocracia, de Lenin, de Trotsky, dos soviets, bolsheviks e comunistas, mas não mais do que da história daquele homem. Não consegui fazê-lo me entender. Naquele dia, tudo que eu pronunciava em russo era Без перевода (fala "spasiba"), ou, obrigada. Mesmo assim e sem saber quanto ele cobrava, se é que cobrava, troquei 30 rublos, a moeda local, pelo livro. Ou, 1,18 dólar. Ou, R$ 2,37, na cotação da data desta postagem. Ele sorriu. Eu saí. Desconcertada. Saí andando, flanando pela avenida, intrigada com aquele riso, segundo e último diálogo entre eu e ele, depois das fotos. Ignorante na cultura daquele homem, só consegui dúvidas. Senti um certo mal resolvido, um incômodo. Ele havia sorrido do pouco que deixei ou porque fui a sua única cliente, por todo o dia? Ou os dois? Continuei andando com uma certa vergonha de olhar para trás. Mais um dia na cidade e descobri que uma garrafa d`água de 300 ml custava 50 rublos, a corrida de ônibus, 20 rublos - transporte público é um ponto fraco da cidade que está entre as dez mais visitadas do mundo -, um sanduíche com refri na McDonald`s, 120 rublos, e um prato de sopa num fast food, 200. O guia da Lonely Planet informava que a renda mensal do são petersburguense era de 15.000 – pouco mais de dois salários mínimos do Brasil (R$ 415). Depois, também fiquei sabendo, por duas garis, que os idosos "sem aposentadoria" da cidade ou trabalham limpando (ruas, parques, lanchonetes) ou vendem livros e objetos pessoais, a exemplo dos ex-combatentes - São Petersburgo já passou por três grandes guerras e duas revoluções -, que se desfazem de comendas, medalhas, farda etc como se fossem matrioskas, as bonequeinhas russas encaixadas umas nas outras, souvenir mais popular do país. "Miséria é miséria em qualquer canto". Só numa manobra do inexorável eu poderia rever aquele senhor "invísivel". Esconderá, para sempre, um milagre - ao menos para mim e este blog. Pode ter sido um professor do conservatório de música erudita. Pode ter sido pai de cinco filhos. Pode ter pago todos os impostos ao governo. Pode ter trabalhado numa repartição pública, num banco norte-americano, vendido seguros de vida, carros, barcos. Contaria, ele mesmo, a história da Rússia? Vida ordinária.
Ps: o livro que eu trouxe tem uma dedicatória. Mas, essa história fica para a próxima postagem.
Custo de vida em São Petersburgo (em rublos)
Garrafa d`água 300 ml – 50.
Vodka razoável – 90.
WC público após a vodka – 15.
Boneca Matrioska, souvenir famoso – 200.
Sanduíche McDonald`s – 120.
Prato de sopa em fast food – 200.
Táxi – 400 (bandeirada mínima; se for clandestino a viagem é negociada).
Minibus – 20 (no máximo 30 pessoas). Renda mensal, média, de um cidadão de São Petersburgo – 15.000 (fonte: Lonely Planet).