quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Garota interrompida

A pauta, por si só, já era "barra", como diria a colega Marta Telles. Era dar conta do que a polícia teria descoberto do corpo de uma bebê de aproximadamente sete meses, encontrado na próximo ao Parque Dona Lindu, no bairro de Boa Viagem. Peguei o bonde andando e tudo que eu sabia não dava para escrever sequer um telegrama. Fui apurar a história com o delegado. Pois bem, 24 horas depois do "achado", a "autoridade" ainda nem tinha encaminhado o caso para a outra "autoridade", a GPCA (Gerência de Polícia da Crianca e do Adolescente). Heim? Como assim, delegado? Franzi a testa, cobrei a responsabilidade, mas foi como pedir resposta para um roubo de uma galinha, um furto de celular, sei lá. Qualquer coisa banal. Ainda estou engasgada com isso. Ah, e nem matéria teve. Por quê? Porque não tinha "nada de novo", avaliou quem me passou a pauta. 

O Ministério da Saúde adverte: Saci Pererê não é bom menino

Sempre soube, na mitologia brasileira, que o Saci Pererê é um menino. Um menino inventado - e que se criou - em tribos indígenas. Que perdeu a perna na capoeira - porque também herdou da mitologia africana algumas coisas. Sendo uma mais esquisita, digamos. Que eu só percebi ontem de manhã, assistindo a um programete infanto-juvenil na TV Cultura. Alguém me diga, por favor, por que o Pererê fuma tanto. O cachimbo na boca é marca tanto quanto o gorro vermelho. Meio feio para um menino. Bem que Ziraldo poderia reinventar a lenda, né?
 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O Rap do Menino Invisível


Nasceu com a pele branca,
com os olhos verdes,
com a sina da miséria,
de uma história impossível.
Era tudo que tinha o menino invisível.
O pai nunca voltou no navio que embarcou.
Atropelada na rua, a mãe nunca acordou.
E na memória do menino miúdo ficou.
Ficou na corpo, na agressão,
na noite escura da morte,
nos dias negros da solidão.
Ele inventou família, fez amigos e irmão.
Não foi para abrigo, se criou na agonia.
Cresceu, viveu, resistiu no Coque, no Ibura, nas "URs", na periferia.
Era como bicho solto aquele menino Pixote.
Mas não queria aquela sina, não queria a morte.
Foi aprender na escola e ensinar no Hip Hop.
Dançou break na rua, cantou rap na rua, pintou grafite na rua.
Fez leitura nos livros, se guiou nos mestres. Luther King, Muhammed Ali, Malcom X.
Literatura, português, geografia e história.
Se formar na faculdade foi outra grande vitória.
De camelô pra funcionário, de menino pra homem.
Ele escapou daquela sina, mas não esquece do ontem.
Quer conhecer sua raiz, seu sobrenome.
Quer viajar pro Ceará.
Quer fazer outra rima pra sua paz encontrar.

Na periferia de si mesmo

A rima é a alma do rap. O rap, a música do hip hop. O hip hop, a expressão da periferia cujo dia se celebra exatamente amanhã, no mundo inteiro. E fazer uma rima diferente, menos óbvia, com a pobreza, a violência e a morte do que a gente se acostumou a chamar de periferia é o rap de Sérgio Ricardo Cavalcante Matos. Tudo isso tem na história dele, homem branco nascido há 34 anos, no Coque, comunidade de 40 mil pessoas, com o pior Índice de Desenvolvimento Humano do Recife. De tão cheia de ganhos e perdas - algumas sem volta - a história de Sérgio é uma daquelas que a gente não sabe se conta de trás para frente ou de frente para trás. Ele não não conheceu o pai, apanhou em casa, perdeu a mãe aos oito anos de idade, perambulou na rua, conheceu armas e drogas, caiu de mão em mão, chegou à escola somente aos 10 anos. Mas escapou da sina ruim: se formou em Sociologia, encontrou pares no hip hop, foi (re)batizado de Sociólogo da Favela e doa o que aprendeu a outrosjovens que poderiam repetir a história dele. Hoje, Sérgio está na periferia dele mesmo. E procura a rima que (ainda) não fez. Quer viajar ao Ceará, para alguém da família encontrar.

"Se eu não acreditasse na minha própria mãe, ia acreditar em quem? Só era a gente no mundo". A pergunta foi uma resposta à outra, feita na entrevista. Sérgio lembra apenas de algumas coisas que a mãe repassou sobre a vida deles dois. Ela falou que foi expulsa de casa, no Ceará, porque engravidou. Contou que abortou, que fugiu para o Recife. Disse que sabia falar três idiomas, que viajou no mundo e foi torturada porque era militante política. Confessou que Sérgio nasceu de um "romance com um gringo americano que veio num navio ao Recife, partiu e nunca mais voltou". O nome dela: Sara Cavalcante Matos. "Ela era inteligente, politizada demais".

Sara era prostituta. "Ela não me falava, mas eu via que ela saía toda a noite para o Porto do Recife", lembra Sérgio. "Quando ela voltava com dinheiro para casa, ela me arrumava todo. Quando não, eu apanhava. Acho que ela descontava a dor e a revolta do mundo em mim". Era 15 de novembro de 1982 - data gravada a ferro quente na memória dele -, quando Sara foi atropelada, em frente ao porto. "Eu fiquei esperando em casa. Mas ela nunca mais voltou". O único documento familiar que restou nas mãos de Sérgio foi o registro de nascimento da mãe. Pelo papel, ela nasceu em 25 de dezembro de 1947, na cidade de Sobral, no Ceará. Era filha de Zilka e neta de Emílio e Zuleika.

Sara era negra. Os olhos verdes de Sérgio, diz ele, são herança do pai que ele não conheceu. São também os olhos de gato e muitas (sobre)vidas. "Eu era bonitinho, afilado, todo mundo queria ficar comigo, depois que Sara morreu. Eu costumo dizer que fui salvo pelos olhos verdes e pela pele branca. Acho que se eu fosse negro, teria menos chance. Mas, de verdade, o que me salvou foi a solidariedade das comunidades carentes", observa Sérgio. E o menino passou de mão em mão, até os 21 anos de idade, quando achou que já podia se sustentar. Trabalhou de camelô, vendendo pilha, "muamba" e veneno de rato. Tinha ponto na Rua da Praia, Rua do Rangel e Beco do Veado, no Centro da cidade. "Só comia se tivesse dinheiro. Foi minha primeira profissão, onde aprendi a encarar as pessoas". Mas as pessoas não viam Sérgio.

O futuro sociólogo se fez menos invisível quando entrou numa sala de aulas. "A única coisa boa no tempo sem casa foi uma família me colocar na escola, quando eu já tinha 10 anos", fala. Sérgio morou no Coque, Rio Doce, UR 2, Vasco da Gama. No Ibura, na escola estadual Lagoa Encantada, ele fez até o 3º ano. "Difícil não cair no tráfico. Até hoje vivo tenso, rude, com medo de passar fome de novo".

"Tentei passar logo no vestibular e não consegui. Mas eu não podia desistir. Não tinha alternativa. Aí, estudei mais um ano com o que tinha, português, literatura e história", relembra. "Escolhi Sociologia porque conheci muita gente na rua que se preocupava com os movimentos sociais do país". Sérgio se formou na UFRPE, em 2003, e prometeu aosprofessores que "até os 50 anos de idade" terá o doutorado. Ficou conhecido por levar a cultura de rua à academia e vice-versa. Daí o codinome Sociólogo da Favela. "De cara, as pessoas pensam que eu faço apologia à favela. Se me conhecem, entendem que a favela é a minha história de vida. Tudo que ganhei veio das ruas".

Adolescente, Sérgio imitava o grupo Menudo com outros jovens. "A gente dançava nos clube e ganhava uns trocados. Foi quando eu percebi que a arte seria um caminho para não me perder", conta. "Nessa época, o break era muito forte no Brasil. Fui me encontrando nessa cena, criando grupos e um espaço para o hip hop na cidade". Com a dança, a música e o grafite, os pilares do movimento cultural, Sérgio hoje ensina como se constrói um cidadão. Está à frente da Associação Metropolitana do Hip Hop em Pernambuco, único filho que botou no mundo. A lida com as questões da periferia rendeu a Sérgio uma profissão na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. É coordenador de cultura. Cria projetos de educação para jovens de 16 a 24 anos, em situação de vulnerabilidade social. Jovens que poderiam repetir a história dele.

Falta ao Sociólogo da Favela fazer par com ele mesmo. Falta a casa. Falta a família. Sérgio mora na Avenida Dantas Barreto, junto com o amigo rapper Tiger. "Enquanto não tiver meu espaço, vou achar que continuo perambulando, como quando era menino. Ainda vou encontrar nem que seja um parente em Sobral. É um buraco existencial. Um jeito de reconhecer a minha humanidade". Sérgio quer viajar para o Ceará. Quer fazer outra rima com o vazio, refletido nos olhos. Os olhos verdes que já foram a redenção e hoje são solidão. Quer sair da periferia dele mesmo.

domingo, 5 de outubro de 2008

Debaixo dos urubus

"Ó, os urubus!". Nem precisa apontar para o céu, porque os bichos são vistos de longe. Mas Ruby faz questão de interromper a conversa, para mostrar com o que convivem ela e os moradores do lugar. Nenhum detalhe do local, aliás, passa despercebido. Nem dela, nem de qualquer visitante. Difícil banalizar os sentidos sobre o que se vê, respira e escuta. De pronto, salta aos olhos o muro alto de cimento, bem reforçado com arame farpado e cerca elétrica. Ao redor, montes de barro cortados geometricamente. Monumentos que encobrem os restos das casas, comércio e indústria da cidade. O vento espalha o odor que sai das chaminés e o barulho do caminhão carregado anuncia mais trabalho a ser feito. Talvez os homens da polícia que guardam o lugar sejam os únicos à vontade com o cenário. Não Ruby. Norte-americana de 56 anos de idade, professora de música e habituada a paisagens de miséria do Brasil, dá aulas de canto a crianças do Morro do Cuscuz, ocupação de 219 famílias que se desenvolveu nas bordas do Aterro do bairro de Aguazinha, em Olinda, único destino das 30 mil toneladas de lixo produzidas no município, diariamente.

O encontro acontece na escadaria em frente ao terraço de dona Narcisa, uma das poucas moradoras que têm casa em alvenaria, porque o morro é quase todo de barracos que se sustentam na sorte. O coro ensaia nos degraus cimentados, ao gosto do sol e da chuva. A regente distribui as xerox das letras. Defronte dos meninos, ensina as notas mais simples. O dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó distrai as crianças dos urubus, do fedor dos dejetos fermentando sob os montes de barro, da barriga vazia, da violência dentro de casa. A "bagulhagem" ou catação do lixo fica sem a mão-de-obra dessas crianças, ao menos no ensaio. "Aqui, as pessoas se matam por lixo", testemunha Ruby, que batizou o projeto de Viver e Sorrir. Nestes dias, os alunos aprendem canções de Natal e os hinos do Brasil e Pernambuco, embora os versos nem sempre façam sentido para esses alunos. "Salve, ó terra de altos coqueiros/ De beleza soberbo estendal/ Nova Roma dos bravos guerreiros/ Pernambuco, imortal, imortal". O encontro se dá apenas às sextas-feiras, entre os turnos escolares. Ruby quer formar um coro para apresentações em escolas, no final deste ano.

Apresentar a flauta doce será o próximo desafio da professora. "Além de um teto para ensaiar, falta um lanche reforçado, porque com fome a criança nem consegue soprar", lamenta a professora, que faz parte da Organização Não-Governamental Círculo de Pernambuco. Ruby ensina canto e violino também em mais duas ocupações do Recife: Ilha do Destino, em Boa Viagem, e Comunidade do Pilar, no Centro. Essas têm mais sorte, porque já incluíram a dança e futebol no projeto. "Mas esse morro é o mais carente. Basta olhar para saber. Difícil encontrar um lugar pior do que esse", diz Ruby. Para subir no Morro do Cuscuz, Ruby ainda precisa da ajuda da professora de ballet e companheira de trabalho, Cláudia Frade. "Eu sou novata. Não tenho crachá de gente conhecida. Aí não sou louca de entrar sozinha", justifica.

Ruby Jean Boddy roda o Brasil desde que partiu da cidade natal, Los Angeles, no estado da Califórnia. Saiu de lá aos quatro anos de idade. Veio com os pais, missionários. Acompanhou o pai, Loren, na construção de igrejas e escolas no Sul e Sudeste do país. Por ser americana e não "bem-vinda" pelo regime militar de 1964, a família precisou se reservar em Pelotas, interior do Rio Grande do Sul. Esse foi o último destino de Ruby, antes de mudar para o Recife, aos 16 anos de idade, junto com a mãe, Caroline. Chegaram apenas de malas nas mãos e ficaram hospedadas de favor em um orfanato, no bairro de Nova Descoberta. "Conhecer favela eu conhecia. Mas eu fui poupada de entrar pelos meus pais. Então, essa foi a minha primeira experiência de verdade". Formou-se bacharel de música aqui. Logo decidiu dividir o conhecimento da academia com as comunidades que ia conhecendo. Hoje, no Morro do Cuscuz, Rubby nem aparenta o desgaste de quem convive com a carência de tudo. Aponta para os urubus no céu, mas também mostra caminhos às crianças do aterro. A música no morro preenche o silêncio das políticas públicas.

A mãe e o medo
A família de Andréa Mercês, de 33 anos de idade, é uma das 219 do Morro do Cuscuz cadastradas na Prefeitura de Olinda, em 2003. A mulher, três filhos menores e o companheiro moram em uma das poucas casas em alvenaria do lugar. Mas a miséria com que convivem tira a graça de quase tudo. As aulas de música da professora Ruby dão um tanto de paz à mãe e diversão aos meninos. O mais velho, de 12 anos, já sabe de cor os versos da primeira canção que conheceu dia desses, "Falai pelas Montanhas". A menina, filha do meio, tem outro talento. Aprende taekwondo, arte marcial que já lhe deu medalha.
A renda da família, conta Andréa, vem da Bolsa Família (R$ 112) e da "ôia" do companheiro, do bico como ajudante de pedreiro. Nada certo. "Faz cinco anos que eu moro aqui, viu? Só que pra mim é muito mais. A gente aqui só tem a Deus. Aqui, a violência, as drogas, essas coisas, começam desde cedo. Tenho medo pelos meus filhos", fala a mãe, na porta da casa de dois cômodos - sendo um deles a cozinha, ondedormem as crianças, dividindo um beliche. O quimono do taekwondo fica dobradinho no guarda-roupas coletivo, no quarto do casal. O banheiro, que não existia quando a família chegou, foi construído aos poucos, com retalhos de cerâmica e uma pia quebrada que achou no lixo.
Andréa aprendeu a escrever o próprio nome há pouco tempo. Nem o da filha - única da casa que aprendeu a ler de verdade - sabe ainda. As crianças estão na escola. "Ganhei a formatura faz um mês. Meu sonho é aprender matemática, porque antes de colocar um produto no cabelo, é bom saber ler, da quantidade, do tempo", fala a mãe, que, para não ver os filhos com fome, cobra dois reais por uma escova no cabelo das mulheres da vizinhança. Tem chapinha e secador, que conseguiu comprar à prestação. "Eu faço o máximo, para não viver na miséria". Nesse dia, o almoço e o jantar foram feijão preto e cuscuz.

O menino e o entulho
Um facão preso na canela, para cortar os entulhos, meião até os joelhos, para não pegar "germes", e boné, apenas porque encontrou no lixo. É assim que trabalha Joaquim (nome fictício), de apenas 15 anos de idade, no Aterro Controlado de Olinda. Luvas não usa porque atrapalha a "bagulhagem", fala o menino, cuja experiência vem dos 10 anos. Por cada quilo de plástico que consegue bagulhar ou catar, ganha 35 centavos. No final de cada semana, diz o menor, chega a tirar R$ 60 - equivalente a 20 quilos ou cerca de 370 garrafas PET. Parte do apurado fica com a mãe, que cria mais três filhos. O padastro e o irmão fazem o mesmo trabalho. A casa da família, aliás, tem vista para o aterro. Dali para os montes de lixo é um pulo. "Venho todo dia. Tem até noite que eu venho, porque tem pouca gente", explica o menino. Nesse dia, havia juntado 40 quilos de plástico, desde às quatro da manhã. Joaquim está fora da escola desde o ano passado. Não sobra tempo nem cabeça para a música da professora Ruby. Vez por outra, vê gente brigando, puxando faca por material. Apenas dois policiais militares, por turno, guardam o lugar. O menino é apenas um dos menores na bagulhagem. Na placa fixada no portão de acesso ao lugar, um contra-senso: "proibida a entrada de crianças e adolescentes".

Foto: Cecília Sá Pereira.

domingo, 21 de setembro de 2008

Без перевода, obrigada















Nem me pergunte o nome deste senhor aí em cima e embaixo, que não sei responder – nem saberei, infelizmente. Conheci – posso assim dizer apesar de ignorar a sua história - em São Petersburgo, cidade da Rússia cheia de armadilhas para os olhos. E de contradições daquelas que sacodem a gente lá para o centro da vida, para dentro das páginas amarelas, cheirando à estante de madeira, desgastadas por traça. Em pé na calçada – sempre um bom lugar para espiar o cotidiano - estava este homem, quando fiz as fotos, em julho deste ano, alto verão. Ficava na Avenida Nevsky, uma versão da 5 Avenida de Nova York. Lojas chiques, caras, de grifes importadas, americanas, italianas
e francesas vendiam as modinhas da estação. Foi, talvez, a única vez na viagem que não precisei do cirílico – aquela mistura de grego com hebraico da escrita russa - para ler as fachadas. GAP, Valentino, Dior... Bom, mas o que queria mesmo era saber o que este homem segurava nas mãos. Será que ele vendia algo também? De frente para ele, toda forasteira, travei. Somente percebi que um dos livros era um romance de espionagem - dava para ver pela capa. Já o outro eu soube a muito custo, depois de obter o livro de segunda mão - mais por instrumento de aproximação com o homem do que pelo conteúdo - e consultar Anna, a recepcionista do hotel onde fiquei. Eu havia trazido A História de São Petersburgo. Claro que valia saber de "Pedro O Grande", da aristocracia, de Lenin, de Trotsky, dos soviets, bolsheviks e comunistas, mas não mais do que da história daquele homem. Não consegui fazê-lo me entender. Naquele dia, tudo que eu pronunciava em russo era Без перевода (fala "spasiba"), ou, obrigada. Mesmo assim e sem saber quanto ele cobrava, se é que cobrava, troquei 30 rublos, a moeda local, pelo livro. Ou, 1,18 dólar. Ou, R$ 2,37, na cotação da data desta postagem. Ele sorriu. Eu saí. Desconcertada. Saí andando, flanando pela avenida, intrigada com aquele riso, segundo e último diálogo entre eu e ele, depois das fotos. Ignorante na cultura daquele homem, só consegui dúvidas. Senti um certo mal resolvido, um incômodo. Ele havia sorrido do pouco que deixei ou porque fui a sua única cliente, por todo o dia? Ou os dois? Continuei andando com uma certa vergonha de olhar para trás. Mais um dia na cidade e descobri que uma garrafa d`água de 300 ml custava 50 rublos, a corrida de ônibus, 20 rublos - transporte público é um ponto fraco da cidade que está entre as dez mais visitadas do mundo -, um sanduíche com refri na McDonald`s, 120 rublos, e um prato de sopa num fast food, 200. O guia da Lonely Planet informava que a renda mensal do são petersburguense era de 15.000 – pouco mais de dois salários mínimos do Brasil (R$ 415). Depois, também fiquei sabendo, por duas garis, que os idosos "sem aposentadoria" da cidade ou trabalham limpando (ruas, parques, lanchonetes) ou vendem livros e objetos pessoais, a exemplo dos ex-combatentes - São Petersburgo já passou por três grandes guerras e duas revoluções -, que se desfazem de comendas, medalhas, farda etc como se fossem matrioskas, as bonequeinhas russas encaixadas umas nas outras, souvenir mais popular do país. "Miséria é miséria em qualquer canto". Só numa manobra do inexorável eu poderia rever aquele senhor "invísivel". Esconderá, para sempre, um milagre - ao menos para mim e este blog. Pode ter sido um professor do conservatório de música erudita. Pode ter sido pai de cinco filhos. Pode ter pago todos os impostos ao governo. Pode ter trabalhado numa repartição pública, num banco norte-americano, vendido seguros de vida, carros, barcos. Contaria, ele mesmo, a história da Rússia? Vida ordinária.

Ps: o livro que eu trouxe tem uma dedicatória. Mas, essa história fica para a próxima postagem.

Custo de vida em São Petersburgo (em rublos)
Garrafa d`água 300 ml – 50.
Vodka razoável – 90.
WC público após a vodka – 15.
Boneca Matrioska, souvenir famoso – 200.
Sanduíche McDonald`s – 120.
Prato de sopa em fast food – 200.
Táxi – 400 (bandeirada mínima; se for clandestino a viagem é negociada).
Minibus – 20 (no máximo 30 pessoas). Renda mensal, média, de um cidadão de São Petersburgo – 15.000 (fonte: Lonely Planet).