domingo, 27 de julho de 2008

Do aeroporto à Lua três vezes

Por dia: 200 quilômetros rodados. Mensalmente: 5,6 mil quilômetros. Ao final de um ano todo: 62,2 mil quilômetros. Total de profissão: 2,5 milhões de quilômetros em viagens para cima e para baixo pelo país. Se astronauta fosse, João Rafael teria ido e voltado da lua três vezes - e ainda sobrariam milhas. Faria o caminho do escritor francês Júlio Verne, A volta ao mundo em 80 dias, 69 vezes. Mas seu João "Doido" - apelido entre os colegas - anda no asfalto mesmo. Aliás, nunca sequer entrou numa aeronave. É o taxista 001 de uma cooperativa. Tem 41 anos de carreira só no Aeroporto Internacional do Recife. Orgulha-se de ser o mais antigo na ativa. Começou a trabalhar no tempo em que avião tinha hélice em vez de turbina, voar era coisa somente de "bacana", a moeda cruzeiro pagava a corrida, Juscelino Kubitschek mandava no Brasil e motorista - cujo dia é comemorado justamente hoje - era "chofer".

Férias, João "Doido" nunca tirou. E olhe que são 57 anos de profissão, incluindo os 41 do aeroporto. A única vez que se deu ao luxo de descansar foi quando tinha um Chevrolet Ômega. "Esse carro era o preferido da presidência. Então, quando Fernando Henrique veio inaugurar uma barragem em Serra Talhada, trabalhei na comitiva", lembra o taxista, sobre 1998. Ah, o descanso ficou por conta do hotel e comida de graça, durante sete dias. Antes de táxi, dirigiu caminhão e "Marinete", espécie de Kombi, fazendo frete e transportando gente do interior à capital e vice-versa - não existia rodoviária e a parada era no Parque 13 de Maio, no Centro. "Naquela época, só tinha comércio no Recife. Depois que inventaram a estrada, a coisa se espalhou". Antes de motorista, foi trabalhador de roça, junto com o pai, em Araruana, cidade paraibana onde nasceu e que abandonou, aos 16 anos de idade. "Chegava o final do ano e eu só ganhava dinheiro para comprar uma roupa de mescla azul e uma percata pega bode. Andei dois dias para chegar em Guabiraba. Tava sonhando ser carregador de caixeiro viajante, da estação de trem para o hotel. Aí, uma dona de pousada me chamou para trabalhar como gato de hotel, que hoje é chique, chamado de re-cep-ci-o-nis-ta", soletra.

De "gato de hotel", seu João pulou para motorista. Tinha 19 anos. A primeira "carta para dirigir", não esconde seu João, foi "arranjada" pelo fazendeiro Chicuta Pedrosa, para quem trabalhou de "chofer". "Naquela época ele era coronel, né? Até o meu nome ele assinou, porque eu nunca entrei numa escola", confessa. Assinar o nome, aliás, foi a única coisa que ele aprendeu. Ainda hoje não sabe a diferença da letra A para a B. Mas sabe da vida. E muito. "Não leio as placas, mas conheço tudo desse estado. Basta gravar a estrada, o mato, a rua, o muro, a cara das pessoas. Só errei uma vez, fui bater em Garanhuns em vez de Canhotinho, porque me confiei na leitura do passageiro, que só depois de rodar bem muito me disse que também era analfabeto". Os 11 filhos (sendo oito ainda vivos), ao contrário dele, foram à escola. "Eu não tinha tempo de visitar a família, quanto mais de aprender. E olhe que a minha esposa era professora". As cartas de amor do casal quem escrevia e lia para seu João era um amigo "bombeiro".

Sem distinção - Seu João não deixa um passageiro carregar mala nem peso. Acha que é obrigação do taxista - ou um costume dos tempos de carregador na estação de trem. Faz viagem com muita gente famosa. Elba Ramalho, Genival Lacerda e o jogador de futebol Rivaldo são os que a memória gravou. Mas, para ele, tanto faz se é artista, político, jogador de futebol ou anônimo. "Eu não trato com diferença porque também não quero que façam comigo". Já viu muita coisa dentro do carro. Tem um repertório sem fim de histórias para contar. "Já teve muita briga, muito rala e rola e mulher deixando o carro no estacionamento do aeroporto para encontrar o outro". Mas, para ele, tanto faz falar ou não. Seu João está ali para trabalhar. A vida toda. "Sustentei os meus filhos e agora ajudo a criar os meus 30 netos e 30 bisnetos com o táxi". Ele mora com um dos dois filhos que também são taxistas, a nora e duas crianças, em Prazeres. O apelido "Doido" foi dado pelos colegas porque topa todas. Um dia desses, fez uma corrida até Afogados da Ingazeira, a 386 quilômetros do Recife, para ganhar R$ 600. "Relampeava mais do que tudo, mas eu precisava".

Se a primeira "carta de dirigir" foi arranjada pelo coronel, a última custou um pouquinho ao seu João. "Da última vez que fui renovar, em 2006, o médico ficou achando ruim. Me disse para não dirigir mais. Aí, eu falei: doutor, eu tenho a carta há 57 anos. Olhe o meu prontuário. Veja se eu já provoquei algum acidente. Ou o senhor bota ela (a secretária) para encher a ficha (do Detran) ou eu volto para a enxada". Seu João nunca pensou em ser outra coisa na vida. Quem viaja no táxi dele, entende direitinho por quê.

(texto publicado no Diario de Pernambuco, em 25 de julho de 2008).

sábado, 12 de julho de 2008

Um certo Tchaikovsky


(texto publicado no Diario de Pernambuco, em 11 de junho de 2008).

Foi assim que Tchaikovsky Johannsen Adler Pryce Jackman Faier Ludwin Zolman Hunter Lins veio parar nesta página de jornal. Um curioso se interessou pela combinação de nove nomes e somente um sobrenome, teve acesso ao prontuário do Instituto de Identificação Tavares Buril (IITB) - órgão da Secretaria de Defesa Social que emitiu a carteira de identidade daquele cidadão - copiou o documento e distribuiu e-mails apresentando como se fosse piada, coisa de circo, de outro mundo. Mas, a mesma internet usada para espalhar o inusitado também deu outras pistas do dono do nome, um menino de 17 anos, admirador de música clássica, regente de coral, autodidata em alemão, arrimo da família e morador da Mangueira, bairro simples na Zona Oeste do Recife. E essa história, essa sim, vale a pena distribuir em e-mails e contar nessa página.

A ópera do nome
O pai de Tchaikovsky, Ricardo, precisou procurar a Justiça para fazer a certidão de nascimento do filho com os nove nomes e somente um sobrenome. "O primeiro cartório não quis fazer o registro de jeito nenhum. O segundo me pediu para procurar um juiz e trazer uma autorização por escrito. Foi o que eu fiz. O juiz achou esquisito um nome tão grande, todo estrangeiro, me falou da dificuldade de tirar outros documentos, mas eu não desisti. Eu tinha certeza que estava fazendo a coisa certa", recorda o pai. Ricardo tinha certeza, apesar do detalhe: quando ele procurou a Justiça, apresentou 19, em vez de nove nomes próprios. O juiz fez Ricardo abrir mão da metade.
A carteira de identidade e o CPF contam outra parte da ópera que é a vida desse menino, desde o seu começo. "A gente passou uma manhã e uma tarde todinha no Instituto Tavares Buril porque o nome completo não cabia na cédula de identidade. Foi preciso esperar o programador de informática dinumuir o tamanho das letras no computador, para entrar o nome todo. Por lei, nenhum nome pode ser abreviado no RG ou CPF. Não sei como a Receita Federal deixou passar no CPF três nomes (Pryce, Zolman e Hunter) somente com as iniciais", estranha Ricardo. Tchaikovsky aprendeu a ler e a escrever em casa, com a mãe, Jane. Depois do alfabeto, ela ensinou o menino a fazer o próprio nome, completo. "Nesse tempo a gente teve que tirar ele da escola porque, de tanto ser repreendido por uma professora, ele ficou traumatizado. Não queria mais ir para escola alguma. Então, se eu estava desempregada, podia ficar com ele, educando e trabalhando a cabecinha dele. E eu fui aos poucos tirando o medo dele", diz Jane. Tchaikovsky não levou mais do que dois meses para fazer o próprio nome, letra por letra. "Ele nunca estranhou o tamanho do nome. Sempre achou normal. Porque tudo mais na vida dele sempre foi normal. Ele tem uma família que se esforça e tem amor".
O menino continou levando na boa. No colégio onde faz o terceiro ano do ensino médio, ele é Tchaikovsky ou Lins, na lista de chamada. No trabalho como estagiário da Celpe -, mesmo com muita timidez - tal como o famoso compositor russo de música clássica Tchaikovsky - ainda explica a origem do nome aos colegas. "Eu preciso ir a muitos andares do prédio. Quando eu entro numa sala e me apresento, tenho que repetir. Aí, junta todo mundo do setor para ouvir eu explicar os nomes. Muita gente acha interessante", conta Tchaikovsky, chamado em casa e pelos colegas de "Tchai".
E o que "Tchai" explica é o seguinte: "Eu não era para ter nascido. Então, como filho único que eu seria, meus pais quiseram me dar um nome especial. E a música clássica é uma coisa especial na nossa família. Minha mãe e meu pai se apaixonaram através da música clássica. Então, eles escolheram o meu nome nos discos de vinil que tinham em casa. Tchaikovsky foi de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, um dos mais importantes compositores russos. Johannsen veio de Arne Johannsen, um regente alemão. O Pryce foi de outro regente, Yuri Pryce. Ludwin deveria ser do mestre alemãoLudwig van Beethoven, mas saiu errado no registro". Somente Zolman e Lins não têm origem na música. O primeiro, segundo "Tchai", é bíblico. "Do hebráico significa homem gerreiro", ensina. Lins é o sobrenome da família. "Se eu tivesse nascido menina, seria difícil. Porque existem poucas musicistas clássicas", acrescenta.

Do vinil ao celular
Os discos de vinil que inspiraram o nome do menino estão guardados como relíquias na estante da sala e sobre guarda-roupas. Um dos mais valiosos é do O Lago dos Cisnes, primeiro balé com orquestra do mundo, criado justamente pelo russo Tchaikovsky e encenado nos quatro cantos do planeta, desde 1877 - quando estreou no Teatro de Bolshoi, em Moscou, na Rússia. Mas a radiola toca também Antonio Lucio Vivaldi, Johann Sebastian Bach e Wolfgang Amadeus Mozart. A família justifica o gosto, em coro: "Traz calma, serenidade. Faz a gente viajar". Samba, funk, brega, nada mais entra em casa. As óperas e outras obras que o pai baixa no computador ficam salvas em CDs e no celular de Tchaikovsky. O aparelho é também tocador de música. Ele dorme e acorda ouvindo aquilo que já conheceu no vinil. Dorme e acorda sonhando em ser um daqueles compositores, maestros ou regentes que estão nas capas dos discos. O parente musicista mais próximo da família Lins é um bisavô do menino, que foi maestro de bandas e fanfarras no município de Belo Jardim, no Agreste de Pernambuco, a 187 quilômetros do Recife.

Solista do próprio destino
Do computador instalado no corredor da casa, os pais de Tchaikovsky tiram as partituras para ensaiar. Ricardo e Jane são regentes de três corais de igreja. O menino vai no mesmo caminho. Mas sozinho. O solo de Tchaikovsky, da Mangueira, está sendo preparado por ele mesmo. "Nunca obrigamos ele a gostar de nada. Tanto, que só agora ele está se dedicando por vontade própria", diz a mãe. Enquanto não presta vestibular para física ou química no final deste ano - não estranhe a opção pelas ciências exatas porque música também é matemática, é cálculo - vai aprendendo a solfejar, ou, a distribuir as vozes, dar os tons, valores e a afinação de cada uma. Para entender melhor as partituras, escritas principalmente em alemão, ele descobre o idioma. Tirou da internet as apostilas e o áudio de um curso gratuito. "A Alemanha é um berço da música clássica. Eu sempre me transporto para lá quando estou deitado na cama, ouvindo no celular". Um dos desejos de Tchaikovsky é conseguir uma bolsa de estudo aqui mesmo, no Recife, para aprimorar o conhecimento em alemão.
Neste mês, ele vai se inscrever no Conservatório Pernambucano de Música. O pai ensina o básico que ele precisa saber para passar pelos testes rigorosos. O curso "intensivo" se dá no programa de computador que imita um órgão - porque o de verdade está queimado, encostado no quarto do menino. "O piano é o instrumento mais completo. E eu desejo estudar muito piano", revela o aprendiz. Tchaikovsky também já está escolhendo o repertório que vai apresentar no concurso de música promovido pela empresa onde ele trabalha, este ano.

O primeiro ato
Mas a história de Tchaikovsky Johannsen Adler Pryce Jackman Faier Ludwin Zolman Hunter Lins, que um dia foi resumida a uma piada na internet, nem era para ter existido. Nem era para estar aqui, nessa página de jornal. A mãe, Jane Silva, e o pai, Ricardo Lins, tinham problemas de saúde e financeiros que impediam a gravidez e a criação de um filho. Mas ela, principalmente, não abria mão da maternidade. E, quase como num milagre, Jane conta, engravidou, depois de dois anos de casada. O sexo do bebê só foi descoberto pelo casal na hora parto. Jane e Ricardo queriam e pressentiam que seria menino mesmo. E desejavam tanto, que nem em nome de menina os dois pensaram. Os nove nomes próprios e somente um sobrenome foram o jeito de marcar aquele acontecimento de 11 de janeiro de 1991. O casal descobriu depois que não podia ter mais filhos.
Tchaicovsky Lins, que nem era para ter nascido, hoje ajuda a criar a família, digamos assim. Trabalha como auxiliar administrativo do departamento jurídico da Celpe, desde março passado. Pelas quatro horas de expediente, de segunda a sexta-feira, recebe a remuneração de R$ 415 e passagens de ônibus. Também terá direito ao 13º salário proporcional ao tempo de trabalho. O início dessa experiência, sorte de pouco jovens brasileiros, está escrito justamente na internet. No site de pesquisa Google, o nome completo do menino aparece na lista de alunos dos cursos de capacitação do programa federal Primeiro Emprego, criado em 2002 para colocar jovens carentes no mercado de trabalho. "Fiquei sabendo desse programa pelo jornal. Levei logo o currículo do meu filho à Agência do Trabalho, na Rua da Aurora, no centro da cidade. Depois de uns oito meses recebi um telefonema do Instituto Empreender, dizendo que Tchaikovsky tinha sido escolhido para participar de um curso de auxiliar administrativo com o Projeto Enter Jovem. Esse instituto é que banca as aulas, junto com o governo do estado. Mas aí, começou outro drama. Como ele ia estudar no colégio e no programa, sea gente não tinha carro nem dinheiro para as passagens?", lembra Jane.
De bicicleta, claro, único meio de transporte da família. Foi o pai quem levou Tchaikovsky na garupa para o Colégio Ferroviário, no bairro de Afogados, onde fez o curso de capacitação, no Bongi, e daí para casa, na Mangueira. A "magrela" foi um presente que o casal ganhou de uma congregação por ajudar a criar e a reger o coral de que faz parte - a família é evangélica. O esforço nos três turnos do dia valeu - e vale - tanto, que Tchaikovsky foi eleito o representante da turma e entrou no trabalho antes mesmo do curso acabar. O menino continua estudando, fazendo uma espealização de auxiliar administrativo no Senac. "A gente tem dois medos. Um é que ele vá para o Exército. O outro, que ele não seja efetivado na Celpe, depois que terminar o estágio, em dezembro que vem", confessa a mãe.Ricardo é técnico em contabilidade e Jane, auxiliar de enfermagem. Ao contrário do filho, tiveram que largar os estudos no ensino médio para se sustentar. Hoje, nem estudos nem trabalho. Há seis anos, os dois estão desempregados. São remunerados quando os "irmãos da igreja podem contribuir" - daí porque bicicleta fica guardada na sala de estar da casa de dois cômodos.

A música de "Tchai"
Curiosamente, o primeiro contato do famoso compositor Tchaikovsky com a música foi aos cinco anos de idade. A mãe dele usou um órgão mecânico velho que havia em casa para ensinar árias da moda. A vontade da família era que o menino russo fosse advogado. Perto dos 20 anos, porém, ele negou qualquer vocação para o direito e foi estudar música no Conservatório de São Petersburgo, na Rússia. Qualquer pessoa nessa idade é considerada, pelos especialistas, velha demais para estudar música. E ele não fugiu à regra. Aos 21 anos, apesar de conhecer e gostar de Mozart, o jovem não ouvia nem tinha a menor idéia de quantas sinfonias Beethoven havia escrito. Mas ele sabia, assim como Tchaikovsky da Mangueira, o que a música poderia lhe dar. E sabia tanto, que antes de morrer, aos 53 anos, já havia criado balés, sinfonias, óperas e concertos executados até hoje, no mundo inteiro. Costumava dizer que "música é vida interior. E quem tem vida interior não está sozinho". E isso, certamente, Tchaikovsky Johannsen Adler Pryce Jackman Faier Ludwin Zolman Hunter Lins, aos 17 anos, já aprendeu, já pode até ensinar.
Foto: Juliana Leitão

domingo, 29 de junho de 2008

Av. Agamenon Magalhães, sem número. Sem nada

Esta é a história de um poeta, um artesão e um dedicado namorado. Os três dividem o mesmo lar: a rampa do Hospital da Restauração.

Erinaldo, Lourival e Gilberto moram juntos. O endereço é um dos mais freqüentados do Recife: Avenida Agamenon Magalhães, sem número, Derby. Todos os dias levantam com o sol e saem para ganhar a vida, com um cafezinho no estômago. São donos do próprio negócio e o ponto comercial pode ser em qualquer esquina da cidade. Erinaldo é poeta cuja obra cabe numa sacola de ráfia desgastada. "Arte incompreendida" que carrega debaixo do braço e alimenta seu pensamento. As latinhas que seu Sardinha, apelido de Lourival, transforma são brinquedo para a criança de sítio que um dia ele foi. "Deixei a casa dos meus pais quando tinha 10 anos", lembra o artesão. Gilberto, o mais velho deles, sobrevive com a "missão que Deus deixou": cuidar da namorada que, segundo ele, é portadora do HIV.

Também todas as noites os três homens voltam juntos para a casa, sempre cheia de hóspedes e visitantes, 24 horas. Dormir é a única coisa que resta para eles. É o possível num lugar que não tem teto nem paredes. O chão se inclina em rampa. Cozinha, para que, se comida só de vez em quando? Erinaldo, Lourival e Gilberto dormem e acordam no Hospital da Restauração, porque têm medo das ruas. A violência já lhes mostrou a cara nas marquises, calçadas e viadutos.

(continua na postagem abaixo)

Av. Agamenon Magalhães, sem número. Sem nada (primeira parte)

Moldando a própria vida
A panelinha feita com lata usada leva ao mesmo tempo comida e distração para seu Sardinha ou Lourival da Silva Caetano. O apelido ele ganhou do pessoal do Hospital da Restauração, onde dorme e acorda todo dia, por um tempo que nem mesmo sabe calcular. A habilidade com os detalhes da miniatura vem da marcenaria, uma das poucas coisas de lhe dão orgulho nesta vida.
Todo mundo pára para ver as latinhas de seu Sardinha, na rampa do HR. Comprar são outros quinhentos. Cada uma custa um real. "Tem dia que não vendo nada. Mas também tem dia que eu dou tudinho. Faço isso para ocupar minha cabeça. Se eu puder ganhar alguma coisa, é para comprar comida", fala seu Sardinha, enquanto afasta as bitucas de cigarro dos outros com a ponta da faca que corta as latinhas. O cheiro provoca o ex-fumante. Outro vício, diz ele, não teve.

Semana que vem, Lourival vai tentar um emprego numa movelaria do centro da cidade. Aguarda apenas a boa vontade do contador da antiga firma para lhe entregar a carta de referência. "As panelinhas aprendi com um colega de João Pessoa. É um jeito também de tirar o lixo da rua, né? A marcenaria, irmã, aprendi sozinho. E eu ensinei também para um dos meus filhos", orgulha-se. Se tudo der certo na nova firma, a primeira coisa que vai fazer com o salário é achar um cantinho. "Com um emprego, eu vou morar aqui? Não volto para junto dos meus filhos porque a mulher não quer".

A marcenaria deu a Lourival um jeito de moldar a própria vida. "Tenho medo da violência na rua. Mas eu não vejo outro jeito se não for rezar para aquele que tem raiva de você. A coisa mais importante que eu posso fazer é perdoar o próximo". Lourival saiu de Garanhus aos 10 anos de idade. Morava em um sítio, com os pais e sete irmãos. "Sabe como é fazendeiro, né, irmã? Muito bruto". Seu Sardinha tem uma reza diária: "primeiramente, amo a Deus, depois a mim, depois a minha mãe".


(continua na postagem abaixo)

Av. Agamenon Magalhães, sem número. Sem nada (segunda parte)


Um amor a céu aberto
Um dia sim, outro não, Gilberto Souza, de 53 anos, encontra com a namorada Fátima Lobo, 43, no Hospital da Restauração. A sala de estar é a rampa do prédio, onde ele dorme e acorda há dois anos. O cumprimento é rápido e tímido. O casal prefere ficar junto bem ali ao lado, na pracinha do Derby, projeto de Burle Max que já testemunhou muitos amores. O brilho nos olhos dos dois aparece de pronto. É a expressão de uma relação que começou na rua e perdura há 10 anos. A visita só não não acontece todo dia porque Gilberto não deixa Fátima andar de ônibus com freqüência. "Ela tá fraquinha. Tenho medo que ela precise de socorro no caminho. Aí, quem vai ajudar?".

Gilberto não gosta de dar ouvidos aos companheiros de rua e do hospital. "Todo mundo diz que é para eu largar ela (Fátima), mas para mim seria uma coisa muito dura. Até uma freira já me disse para eu me separar dela. Mas eu sinto vontade de cuidar dela para a vida toda". E o que é isso, seu Gilberto, se não amor? Ele mora no HR e Fátima, de favor, com uma ex-empregada dela. O namoro na pracinha dura menos do que uma hora e Gilberto coloca Fátima de volta no ônibus para casa. Viagem mais longa os dois planejam para Belém, no Pará, onde ela tem família. "Vou com ela porque essa pode ser a última missão que Deus colocou para mim, né?".

Pai e mãe Gilberto não conheceu. Essa é uma das poucas certezas que tem. Foi adotado por uma família que diz não existir mais. Se não fosse Fátima, seria ainda mais só, porque quer solidão maior do que nem lembrar da infância? A mochila a tiracolo tem algumas mudas de roupa. Experimentou as ofertas fáceis da rua, como álcool e drogas. O último emprego foi num sítio. Não aprendeu uma profissão, como diz. O trabalho era puxar carroça com papelão e resto de lixo dos outros. Além da viagem com Fátima, Gilberto quer "negociar pipoca e bala, feito o pessoal daí da frente faz. Não culpo ninguém do que eu tenho. Sofro muito, mas eu quero me levantar".


(continua na postagem abaixo)

Av. Agamenon Magalhães, sem número. Sem nada (parte final)

O intelectual da rampa
As histórias que Erinaldo conta dão a entender que ele é personagem dele mesmo. Dorme e acorda na rampa do hospital, estuda sociologia, filosofia, cita e recita Cecília Meirelles, Vinícius de Moraes, Paulo Freire, Shakespeare e ele mesmo. Também faz poemas. E com a poesia que percebe na vida se convence de que precisa de pouco para ser feliz. "Durmo olhando as estrelas e acordo com os bem-te-vis". Erinaldo é autor de dois livros, obra que vende em cópias de uma xerox qualquer.

Erinaldo, hoje com 49 anos, saiu da terra natal, Guarabira (PB), deixando letrado o único filho. "Marcos Vinícius hoje é o diplomata da família. Abandonei meu filho quando ele tinha 11 anos, mas já sabia ler e escrever. Não volto lá porque ainda é muito atrasado", justifica Erinaldo, como o sociólogo que se diz ser. O curso de graduação, segundo ele, foi feito numa universidade de Campina Grande, lá pelos anos 70 ou 80. Ele nem sabe ao certo.

A mesma Guarabira, porém, é uma de suas inspirações: a infância na rua, jogando bola, botão, passando anel nas mãos das meninas e a leitura na escola. E cita mais um: "Ai que saudade que eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais", de Cassimiro de Abreu. "Meu pai, seu Francisco, operário confesso, era um socialista. Minha mãe, dona-de-casa, vive até hoje sentadinha na cadeira de balanço, esperando notícias do filho e dos netos".

Na sacola de ráfia, protegida como se a própria vida fosse, Erinaldo leva livros, que pega emprestado, compra no sebo ou faz "rolo" com os que já tem. O título de cabeceira (sic) é Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire. O da vez é o Nós Dizemos Não, de Eduardo Galeano, sobre a América Latina, miséria e resignação. "Sou um sociólogo que saí da teoria para a prática. Vivo para fazer uma sociedade mais humana. Não sei que nome você dá a isso, se é socialismo ou que, mas é o que eu sonho". O senhor não tem medo das pessoas lhe tirarem isso? Ele responde com Mário Quintana: "Eles passarão. E eu, passarinho".
Textos publicados no Diario de Pernambuco, em 18 de maio de 2007
Fotos de Inês Campelo