No asfalto,
Na calçada,
No piso do estacionamento,
Marcas de chiclete gasto que muita gente cuspiu.
Goma presa para sempre.
Pedaços de histórias que não conheci.
Na boca,
Na saliva,
Nos dentes,
Travas de palavras amargas que não cuspi.
Verbo engolido indefinidamente.
Pedaços de mim que não experimentei.
("croniqueta" da noite que fui comprar iogurte no Carrefour)
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
O homem da quina dos Correios
Acordei cedo hoje (para mim qualquer hora antes das 8h ainda é madrugada), para dar aula em mais uma turma de jornalismo. Só me imaginava nisso (madrugando) sob tortura, penitência ou castigo. Achei que eu não renderia sequer um "oi, bom dia, meu nome é Ana Braga", mas até que na estreia segurei a barra de ter madrugado, dirigido no piloto automático e enfretado o sol medonho no cocuruto, ao atravessar a Avenida Guararapes (que já vive o alvoroço do Galo da Madrugada). A turma instigou. É buliçosa. Tem vontade de saber ou, por malvadeza, de testar a simpatia da professora àquela hora da manhã. Mas bom mesmo foi enxergar o cotidiano do centro do Recife às claras. Me acostumei com a noite na faculdade. Nesse turno, vejo nas calçadas e pontos de ônibus estudantes exauridos do dia que já foi também de trabalho; ambulantes na ladainha "olha a pipoca, olha a água, olha a pipoca, olha a água" para distrair a fome dos passageiros; crentes em deus e diabo profetizando o fim do mundo em caixas de som; e bêbados sem rumo. No expediente do sol tem tudo isso e mais um pouco de cenas e personagens. Tem ambulantes oferecendo apostilas milagrosas para todo tipo de concurso, coco gelado a R$ 1 (quantas coisas a gente compra com R$ 1, heim?) e office boys em formigueiros. E tem uma figura que fitei três vezes, no mesmo lugar. Sentado numa das quinas do prédio dos Correios (do lado da Rua Siqueira Campos) fica um cidadão com cerca de 30 anos. Está maltratado. Sujo e magro. Protege um pequeno embrulho de pano encardido e só. Ontem às 19h, ele folheava o jornal AquiPE de uma semana atrás. Às 21h, mexia numa edição do Diario Oficial do estado. Hoje de manhã, ele sorria vendo uma revista Cláudia. Se lê mesmo não garanto. Já o escutei sussurrando palavras, que nem sei se estavam no texto. Será que se esforçava para conversar com as letras naquela quina que é sua casa? Será que chamava atenção para ficar menos invisível diante de quem passa? Será que se distrai na própria ausência? Curiosidade mata um, já diz a minha mãe. Mas tá aí mais um bom motivo para eu madrugar. Tentarei puxar papo com ele, para um próximo post.
Ps: seria abuso da minha parte publicar a foto dele?
Ps: seria abuso da minha parte publicar a foto dele?
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domingo, 24 de janeiro de 2010
Exército de invisíveis
A boina, boné ou o capacete azul identifica quem faz parte da Missão das Nações Unidas para estabilização do Haiti, a Minustah. Mas existe no país um exército de invisíveis tão "presente" quanto os que trabalham de azul. É uma tropa de cidadãos haitianos e estrangeiros que não se destacam nas imagens da internet, televisão e jornal, mas cuja ajuda tem importância a olhos vistos. São porta-vozes de comunidades e integrantes de organizações civis, como a ActionAid, ONG internacional que atua há 11 anos no Haiti.
O escritório da ActionAid foi o único prédio que não desabou totalmente numa das ruas de Mariani, comunidade de Porto Príncipe. Uma equipe de 30 pessoas (sobretudo haitianos e brasileiros) tem feito o trabalho de emergência da organização no Haiti. É a única ONG atuando em Mariani, até agora. "Acabamos de conseguir um armazém, para abrigar e distrubuir o suprimentos. Já entregamos alimentos como manteiga de amendoim reforçada com vitamina, milho, óleo e farinha para2,5 mil pessoas. Estamos aguardando barracas, cobertores, caixas de leite em pó e fraldas, peças íntimas para mulheres e meninas, além de tubos de pasta e escovas de dente", diz Adriano Campolina, diretor regional da ActionAid na América Latina, instalado em Porto Príncipe desde a quarta-feira. "Um carregamento de sabão, enlatados, biscoitos, cordas e redes anti-mosquito também está chegando nos próximos dias", afirma o representante da ONG que existe há 37 anos e atua em 53 países.
Outra ação emergencial da ActionAid no Haiti tem sido localizar crianças que participam do programa de apadrinhamento da organização. Nessa busca, já foram encontradas as irmãs Wendy, de 12 anos, e Michou, 10 anos (foto acima). As meninas vivem com seus pais, Monique e Sony Destramy, em Mariani. A família está desabrigada e a comida é compartilhada com os vizinhos. A água que bebem vem de um córrego. "Tem sido muito difícil encontrar comida e quando encontramos é tudo muito caro. Não temos dinheiro para nada", conta Monique.
Os Destramy foram encontrados nas ruínas da casa. Sony trabalhava como vendedor de sacolas plásticas, mas estava afastado do trabalho porque ficou doente. Monique vendia copos de vidro, mas toda a mercadoria foi destruída no terremoto. "Eu estava do lado de fora da casa, descansando, quando tudo começou a tremer. Fiquei muito confuso. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Meus filhos estavam dentro da casa e tudo começou a desabar ao nosso redor. Aconteceu muito rápido. As crianças conseguiram sair sem se ferir, mas perdemos tudo", lembra Sony.
Wendy e Michou são apadrinhadas por doadores italianos. As duas frequentavam a escola local, mantida pela Cozpam, organização parceira da ActionAid. No distrito de Mariane, 45 crianças são apadrinhadas pela ActionAid. Outras 550 crianças também participam do programa em Philipeau, área menos afetada pela tragédia. Muitas pessoas estão deixando Porto Príncipe e procurando abrigo nas casas de parentes que vivem na zona rural do Haiti. "Nos só esperamos que nossos filhos voltem a estudar e que a gente consiga um lugar para dormir", completou Monique.
O apadrinhamento de crianças coordenado pela ActionAid funciona através de doações. Com a contribuição mensal de R$ 35, o doador cria um vínculo solidário com uma criança que vive em uma comunidade beneficiada pelo trabalho da organização. receber periodicamente fotos e mensagens desta criança. "O doador acompanha os resultados através de fotos e mensagens da criança", explica a coordenadora executiva da ActionAid Brasil, Rosana Heringer.
A doação é direcionada a projetos nas áreas de alimentação, educação, saúde e moradia, que beneficiam não só a criança, mas a comunidade. No Haiti, o foco da ONG tem sido sobre agricultura sustentável e prevenção de Aids em mulheres e jovens. "Estamos prevendo que vamos ampliar o trabalho da agricultura, porque as pessoas estão migrando da capital para a zona rural", observa Rosana, que recentemente esteve na Índia, para acompanhar o trabalho de reconstrução de comunidades destruídas pelo terremoto doOceano Índico, ou tsunami, de 2004. "Já se passaram cinco anos e eles ainda têm muito por fazer. Será o mesmo esforço no Haiti", avalia. No Brasil desde 2000, a ActionAid atua em 13 estados (em Pernambuco têm parceria com organizações de cinco comunidades). São 400 mil doadores individuais em todo o mundo, sendo 2,5 mil brasileiros.
Foto de Moisés Saman/ voluntário da ActionAid
Texto publicado no Diario de Pernambuco, em 24 de janeiro de 2010.
O escritório da ActionAid foi o único prédio que não desabou totalmente numa das ruas de Mariani, comunidade de Porto Príncipe. Uma equipe de 30 pessoas (sobretudo haitianos e brasileiros) tem feito o trabalho de emergência da organização no Haiti. É a única ONG atuando em Mariani, até agora. "Acabamos de conseguir um armazém, para abrigar e distrubuir o suprimentos. Já entregamos alimentos como manteiga de amendoim reforçada com vitamina, milho, óleo e farinha para2,5 mil pessoas. Estamos aguardando barracas, cobertores, caixas de leite em pó e fraldas, peças íntimas para mulheres e meninas, além de tubos de pasta e escovas de dente", diz Adriano Campolina, diretor regional da ActionAid na América Latina, instalado em Porto Príncipe desde a quarta-feira. "Um carregamento de sabão, enlatados, biscoitos, cordas e redes anti-mosquito também está chegando nos próximos dias", afirma o representante da ONG que existe há 37 anos e atua em 53 países.
Outra ação emergencial da ActionAid no Haiti tem sido localizar crianças que participam do programa de apadrinhamento da organização. Nessa busca, já foram encontradas as irmãs Wendy, de 12 anos, e Michou, 10 anos (foto acima). As meninas vivem com seus pais, Monique e Sony Destramy, em Mariani. A família está desabrigada e a comida é compartilhada com os vizinhos. A água que bebem vem de um córrego. "Tem sido muito difícil encontrar comida e quando encontramos é tudo muito caro. Não temos dinheiro para nada", conta Monique.
Os Destramy foram encontrados nas ruínas da casa. Sony trabalhava como vendedor de sacolas plásticas, mas estava afastado do trabalho porque ficou doente. Monique vendia copos de vidro, mas toda a mercadoria foi destruída no terremoto. "Eu estava do lado de fora da casa, descansando, quando tudo começou a tremer. Fiquei muito confuso. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Meus filhos estavam dentro da casa e tudo começou a desabar ao nosso redor. Aconteceu muito rápido. As crianças conseguiram sair sem se ferir, mas perdemos tudo", lembra Sony.
Wendy e Michou são apadrinhadas por doadores italianos. As duas frequentavam a escola local, mantida pela Cozpam, organização parceira da ActionAid. No distrito de Mariane, 45 crianças são apadrinhadas pela ActionAid. Outras 550 crianças também participam do programa em Philipeau, área menos afetada pela tragédia. Muitas pessoas estão deixando Porto Príncipe e procurando abrigo nas casas de parentes que vivem na zona rural do Haiti. "Nos só esperamos que nossos filhos voltem a estudar e que a gente consiga um lugar para dormir", completou Monique.
O apadrinhamento de crianças coordenado pela ActionAid funciona através de doações. Com a contribuição mensal de R$ 35, o doador cria um vínculo solidário com uma criança que vive em uma comunidade beneficiada pelo trabalho da organização. receber periodicamente fotos e mensagens desta criança. "O doador acompanha os resultados através de fotos e mensagens da criança", explica a coordenadora executiva da ActionAid Brasil, Rosana Heringer.
A doação é direcionada a projetos nas áreas de alimentação, educação, saúde e moradia, que beneficiam não só a criança, mas a comunidade. No Haiti, o foco da ONG tem sido sobre agricultura sustentável e prevenção de Aids em mulheres e jovens. "Estamos prevendo que vamos ampliar o trabalho da agricultura, porque as pessoas estão migrando da capital para a zona rural", observa Rosana, que recentemente esteve na Índia, para acompanhar o trabalho de reconstrução de comunidades destruídas pelo terremoto doOceano Índico, ou tsunami, de 2004. "Já se passaram cinco anos e eles ainda têm muito por fazer. Será o mesmo esforço no Haiti", avalia. No Brasil desde 2000, a ActionAid atua em 13 estados (em Pernambuco têm parceria com organizações de cinco comunidades). São 400 mil doadores individuais em todo o mundo, sendo 2,5 mil brasileiros.
Foto de Moisés Saman/ voluntário da ActionAid
Texto publicado no Diario de Pernambuco, em 24 de janeiro de 2010.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
A infância roubada do Haiti
Apenas uma semana e 300 pedidos de adoção de crianças haitianas. É o que registra a Embaixada do Haiti em Brasília. A tragédia do terremoto sobre o já maltratado país caribenho está fazendo brasileiros olharem para o que ele tem de mais frágil: sua infância. A Justiça de Pernambuco e organizações civis internacionais com representações no Haiti e no Recife vêm discutindo a questão. O cenário de emergência, a falta de estrutura de estado haitiano (todos os cartórios da capital estão em ruínas), o desconhecimento sobre a legislação estrangeira e a possibilidade de gerar traumas ainda maiores são obstáculos a esse delicado processo. Antes do terremoto, havia 380 mil órfãos no Haiti.
A porta-voz do Unicef, Veronique Taveau, declarou ontem que considera a adoção o último recurso de ajuda estrangeira ao Haiti. "Nossa política é tentar a todo custo encontrar parentes da criança. A adoção é quando todas as possibilidades fracassarem", diz Veronique. Os esforços são feitos para reunir as crianças com suas famílias. Só se isso for impossível, alternativas permanentes, como a adoção, devem ser consideradas pelas autoridades competentes. "Por enquanto, encontramos esses órfãos, identificamos e registramos, e depois privilegiamos a reunificação com a família, mesmo que seja com tio, primo ou avô", ressalta a porta-voz. Não há número exato de quantas crianças ficaram órfãs após o terremoto. "Mas se as estimativas dizem que cerca de 2 milhões de pessoas foram afetadas, e as crianças são a metade da população, é fácil calcular", observa Veronique. Ela reage às informações sobre que, em alguns casos, estão sendo acelerados os trâmites para adoções internacionais.
A coordenadora no Recife da organização Save The Children, Fernanda Ferreira, compartilha a ideia da adoção por estrangeiro como último esforço de ajuda. Responsável no Brasil por dar treinamentos sobre situações de emergência (terremoto, deslizamento, enchentes, conflito armado), Fernanda destaca que a reunificação familiar deve ser prioridade para os órfãos haitianos. "Parentes adultos também vivem o trauma e são referência. Uma criança adotada em um país estrangeiro poderá perder essa identidade afetiva, o que gera mais trauma", avalia. Parceira do Unicef, a Save The Children tem escritório e equipe de emergência em Porto Príncipe. Até terça-feira que vem, a organização realiza em Olinda um seminário internacional com profissionais que atuam em situações de emergência.
O secretário executivo da Comisão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), o juiz Humberto Vasconcelos, reconhece que a situação do Haiti sensibiliza brasileiros, mas sugere que interessados em adotar crianças olhem para a própria realidade. "O que vemos no Haiti desperta em nós um potencial de doação muito grande. Vamos aproveitar esse espírito e adotar ou mesmo apadrinhar crianças brasileiras. Temos cenários de extrema carência bem semelhantes ao do Haiti", alerta Vasconcelos. "Mas se alguém tiver interesse absoluto em uma criança haitiana, pode procurar a Ceja", orienta.No Recife, 380 crianças estão em abrigos à espera de novos pais.
Quem tem interesse sobre uma criança de país signatário da Convenção de Haia (que não é o caso do Haiti), precisa, primeiro, de uma habilitação internacional para adoção. Para isso, uma vara de infância pode oferecer informações. Se for habilitado, o interessado deve procurar, então, o órgão responsável no país natal da criança. A Convenção de Haia regulamenta a adoção internacional. Quem pretende adotar uma criança haitiana precisa solicitá-la através da embaixada, que faz intermediação com as autoridades do Haiti. "O estado haitiano está sem condições de legalizar adoções. E quando a criança é de um país que não participa de Haia, o simples acolhimento dela no estrangeiro pode ser caracterizado como sequestro internacional de incapaz", explica o professor da Unicap e doutor em Ciência Política, Thales Castro.
Os brasileiros que procuraram a embaixada em Brasília foram orientados a mandar e-mails com dados pessoais. "A adoção internacional não deve ocorrer em situações de guerras, calamidades e desastres naturais, por não ser possível verificar o histórico pessoal e familiar da criança que se pretende colocar em adoção", diz, em nota, a subsecretária para Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente da Presidência da República e presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Carmen Oliveira.
Texto publicado no Diario de Pernambuco, em 20 de janeiro de 2010.
A porta-voz do Unicef, Veronique Taveau, declarou ontem que considera a adoção o último recurso de ajuda estrangeira ao Haiti. "Nossa política é tentar a todo custo encontrar parentes da criança. A adoção é quando todas as possibilidades fracassarem", diz Veronique. Os esforços são feitos para reunir as crianças com suas famílias. Só se isso for impossível, alternativas permanentes, como a adoção, devem ser consideradas pelas autoridades competentes. "Por enquanto, encontramos esses órfãos, identificamos e registramos, e depois privilegiamos a reunificação com a família, mesmo que seja com tio, primo ou avô", ressalta a porta-voz. Não há número exato de quantas crianças ficaram órfãs após o terremoto. "Mas se as estimativas dizem que cerca de 2 milhões de pessoas foram afetadas, e as crianças são a metade da população, é fácil calcular", observa Veronique. Ela reage às informações sobre que, em alguns casos, estão sendo acelerados os trâmites para adoções internacionais.
A coordenadora no Recife da organização Save The Children, Fernanda Ferreira, compartilha a ideia da adoção por estrangeiro como último esforço de ajuda. Responsável no Brasil por dar treinamentos sobre situações de emergência (terremoto, deslizamento, enchentes, conflito armado), Fernanda destaca que a reunificação familiar deve ser prioridade para os órfãos haitianos. "Parentes adultos também vivem o trauma e são referência. Uma criança adotada em um país estrangeiro poderá perder essa identidade afetiva, o que gera mais trauma", avalia. Parceira do Unicef, a Save The Children tem escritório e equipe de emergência em Porto Príncipe. Até terça-feira que vem, a organização realiza em Olinda um seminário internacional com profissionais que atuam em situações de emergência.
O secretário executivo da Comisão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), o juiz Humberto Vasconcelos, reconhece que a situação do Haiti sensibiliza brasileiros, mas sugere que interessados em adotar crianças olhem para a própria realidade. "O que vemos no Haiti desperta em nós um potencial de doação muito grande. Vamos aproveitar esse espírito e adotar ou mesmo apadrinhar crianças brasileiras. Temos cenários de extrema carência bem semelhantes ao do Haiti", alerta Vasconcelos. "Mas se alguém tiver interesse absoluto em uma criança haitiana, pode procurar a Ceja", orienta.No Recife, 380 crianças estão em abrigos à espera de novos pais.
Quem tem interesse sobre uma criança de país signatário da Convenção de Haia (que não é o caso do Haiti), precisa, primeiro, de uma habilitação internacional para adoção. Para isso, uma vara de infância pode oferecer informações. Se for habilitado, o interessado deve procurar, então, o órgão responsável no país natal da criança. A Convenção de Haia regulamenta a adoção internacional. Quem pretende adotar uma criança haitiana precisa solicitá-la através da embaixada, que faz intermediação com as autoridades do Haiti. "O estado haitiano está sem condições de legalizar adoções. E quando a criança é de um país que não participa de Haia, o simples acolhimento dela no estrangeiro pode ser caracterizado como sequestro internacional de incapaz", explica o professor da Unicap e doutor em Ciência Política, Thales Castro.
Os brasileiros que procuraram a embaixada em Brasília foram orientados a mandar e-mails com dados pessoais. "A adoção internacional não deve ocorrer em situações de guerras, calamidades e desastres naturais, por não ser possível verificar o histórico pessoal e familiar da criança que se pretende colocar em adoção", diz, em nota, a subsecretária para Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente da Presidência da República e presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Carmen Oliveira.
Texto publicado no Diario de Pernambuco, em 20 de janeiro de 2010.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Haiti, futuro Timor-Leste?
Neste modesto blog, dei lugar a vozes dissonantes da maioria das declarções sobre a Missão das Nações Unidas de Estabilização no Haiti (Minustah). Vozes que acreditam em um novo Haiti, mas não de uma nova pátria descaracteriza. Vozes que pedem menos armas, menos repressão e mais escolas e hospitais. Vozes que acreditam num futuro sustentável e não de mentirinha. Soberano e não dominado.
Hoje, o espaço é para um general do Exército. Um homem que segurou armas, enfrentou gangues, cumpriu ordens da ONU. Um homem que, de certa forma, dá a cara do Exército à tapa, quando admite que a missão iniciada em 2004 falha com haitianos ao fazê-los sonhar com um novo Haiti. Sonhar não basta.
O presente do Haiti está na cara do mundo: corpos, sobreviventes, manisfestações solidárias e declarações oficiais de países ricos e em desenvolvimento. O futuro do país caribenho, que já viu e ouviu promessas, está lá trás. Está no passado de outro país pobre. Numa história marcada também pela instabilidade política e pela violência. O general do Exército e comandante militar do Nordeste, Américo Salvador de Oliveira avalia que um novo (e sustentável) Haiti só será possível com a intervenção da ONU. "Se as Nações Unidas não fizerem como no Timor-Leste, só um milagre", declarou o general, que recebeu o comando da região este ano. Servindo no Nordeste pela primeira vez, o comandante nascido em Santos (SP) conversou com a reportagem sobre a "terra prometida" ao Haiti, os bastidores do trabalho das tropas brasileiras no país, futebol e a Copa do Mundo de 2014 no Brasil.
Timor-Leste, o exemplo
Em maio de 2002, o Timor-Leste tornou-se um país independente. O processo de cerca de três anos se deu com a ajuda das Nações Unidas. Com uma história marcada pela luta pela soberania e por guerras civis, o país recebeu a primeira força de paz em 1999. O Exército brasileiro fez e faz parte das organizações que ajudam o país em seu caminho para a plena soberania e paz duradoura. "Não adianta colocar todo o dinheiro do mundo nas mãos dos haitianos. Eles não saberão o que fazer", observa o general Salvador, que ainda guarda a boina azul usada no Haiti e que identifica missões humanitárias da ONU. "A intervenção que aconteceu no Timor Leste não foi de dominação. Não tirou as características da pátria. O brasileiro Sérgio Vieira de Mello foi quem colocou os recursos onde realmente o país precisava". Diplomata, Vieira de Mello exerceu o cargo de administrador de transição da ONU no Timor-Leste. Por essa e outras atuações, recebeu a nomeação de Alto Comissário das Nações Unidas. Em 2003, morreu em Bagdá, vítima de atentado atribuído à Al-Qaeda contra a sede local da ONU.
2004, a promessa
Os planos para o Haiti eram muitos em 2004, quando a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) chegou ao país. Criar condições para o exercício da democracia era um deles. Com esse viria a garantia do direito à educação, saúde, moradia e serviços básicos, como de água tratada. Há críticos contra e a favor do grande projeto com o que o mundo se comprometeu. Há quem apoie e quem desacredite na Minustah. "Eu também reclamo que faltam escolas e hospitais. Quem fala negativamente da Minustah tem razão, em parte. O problema, eu vejo, está nas promessas, nos planos que não aconteceram. Os haitianos só veem soldados nas ruas", observa. "Existem muitas propostas prontas, mas elas precisam de recursos. A comunidade internacional fez promessas, mas esse dinheiro não chega. Então, a missão como um todo fica só com a cara de armas ou de repressão da polícia local", analisa o general Salvador.
Para o comandante militar do Nordeste, a parte "bem feita" da missão está com o Brasil. "Nós estamos fazendo mais do que fomos destacados para fazer, que é liderar o componente militar da Minustah, oferecer segurança ao país, coordenando os 17 contingentes de militares do mundo inteiro no Haiti. Eu mesmo, que vivi os seis primeiros meses da missão, atuei na questão da assistência social, reconstruindo uma escola e chamada de Duque de Caxias; construindo postos de saúde; criando uma praça pública em Cité du Soleil, uma das comunidades mais miseráveis; e perfurando poços", diz o general.
Brasileiros, o bastidor
O quartel das tropas brasileiras não foi atingido pelo terremoto. Por isso mesmo, as "baixas" ou mortes no efetivo foram menores do que em contingentes de outros países, como Canadá. Até o fechamento desta edição, às 22h, eram 17 as vítimas militares do Brasil. "Quando nós chegamos em 2004, o abrigamento era improvisado. Não tínhamos ainda apoio da ONU e ficávamos acantonados no aeroporto, em um galpão e barracas. Depois, permanecemos em uma universidade em construção, até chegarmos nas instalações semifixas. Chegamos a ter três canais de televisão", detalha o comandante Salvador. Apesar do aparato, o general não conseguiu contato com o "amigo particular" e comandante do atual contingente brasileiro no Haiti, o general Floriano Peixoto.
No próximo dia 28, a tropa brasileira será totalmente renovada. Cerca de mais 1,3 mil militares irão trabalhar em um cenário que talvez sequer imaginem. "Brasileiro gosta de ajudar sem qualquer retorno. Os outros países às vezes têm até mais condições, mas não têm sensibilidade com nós", afirma o general Salvador, que faz questão de se apresentar usando a farda camuflada. "É a minha preferida. De combate. Foi uma dessa que usei no Haiti, de onde não saí um dia sequer naqueles seis meses", conta.
Para entrar no Haiti, o militar brasileiro precisa passar por uma preparação de seis meses (o mesmo tempo de permanência da cada contingente em missão). Ser voluntário é o primeiro requisito, mas não o único. "Nós trabalhamos com situações, com problemas que o militar vai encontrar no lugar. Fazemos inúmeros testes, inclusive da saúde psicológica do voluntário. A mesma coisa na desmobilização, na volta da missão. Tentamos desfazer possíveis traumas que afetem a família do militar e sua carreira", garante o comandante.
Em toda missão considerada de paz surgem situações traumatizantes, afirma o general Salvador. "É comum haver o aproveitamento da miséria. A exploração. Há casos em que se acusa o militar de abuso à uma mulher, para requerer indenização, por exemplo", conta o comandante. "Nós já recebemos denúncias sobre isso, mas nada foi provado", afirma. Uma traição também marcou a memória do general Salvador. "A polícia de lá é corrupta e violenta. O diretor da Polícia Nacional do Haiti, homem de confiança para nós, foi o mentor do sequestro da dona do Hotel Montana. Aconteceu na época do nosso 3º contingente", relembra.
Futebol, o símbolo
A violência deu uma trégua ao Haiti no dia 18 deagosto de 2004. "O país parou para ver a Seleção do Brasil. Eu fui um dos eram contra o jogo. Tínhamos acabado de chegar. O risco era muito grande. Ainda não tínhamos dominado a segurança", conta o general. "Mas o comportamento dos haitianos, inclusive das gangues, foi de calma. O que nos provou que a índole do povo é pacífica", rememora o comandante. "A organização vendeu o dobro de ingressos em relação à capacidade dos lugares no estádio. Fiquei imaginando no que daria isso no Brasil", compara o general, para quem o recrudecimento das gangues pode ser mais um desafio à missão. "O presídio do Haiti foi totalmente afetado pelo terremoto. Quem não morreu, foi solto. Quem estava nas delegacias também. Mas acredito que essas lideranças serão presas novamente. O problema é não ter onde prender", avalia.
Nascido em Santos (SP), o general Salvador é torcedor da Seleção Brasileira. "Eu fui Corinthians. Mas desisti. De maneira geral, o futebol do Brasil só tem mercenário", critica o comandante. Ao ser questionado sobre a possibilidade do Exército atuar na segurança do Brasil durante a Copa do Mundo de 2014, o oficial é enfático: "o governador teria que ser convocado. Antes disso, o governador teria que declarar que a segurança dele é insuficiente. Que administrador gosta disso?", devolve o general. O Comando Militar do Nordeste compreende nove estados, em três grandes comandos: 6ª Região Militar (BA e SE); 7ª Região Militar - 7ª Divisão de Exército (AL, PE, PB e RN) e 10ª Região Militar (CE, PI e MA), com sedes, respectivamente, nas cidades de Salvador, Recife e Fortaleza.
Texto publicado no Diario de Pernambuco. http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/01/19/mundo4_0.asp
sábado, 16 de janeiro de 2010
A dor em outra dimensão
Doulè. Foi assim que Franck Seguey escreveu ontem, no bloco de anotação da reportagem, o que significa dor, na língua oficial predominante do Haiti, o crioulo. Mas não há tradução para o que sentem ele e a esposa, Michaelle Desrosiers, únicos haitianos no Recife. O casal de professores universitários está na capital há quase dois anos. "Fiquei aqui 22 meses na expectativa de receber notícia ruim. Mas não imaginei que chegasse a essa dimensão", desabafou Franck, durante entrevista na UFPE, onde ele e a esposa concluíram, neste mês, o mestrado em Serviço Social. Eles foram salvos. Planejavam chegar no Haiti na última terça-feira, dia 12, dia do terremoto. Porque o voo não tinha assentos à venda nessa data na internet, compraram as passagens para o dia 14. Foram salvos. Mas não sabem como vão sobreviver na dor do Haiti.
Michaelle está no 5º mês de gestação do segundo filho. A filha, "recifense da gema", diz o haitiano, tem 15 meses de vida. "Lorrene já nasceu lutando com a gente. Ela nasceu prematura", conta. As primeiras notícias de familiares e amigos Franck recebeu justamente quando levava a criança à consulta do neurologista, no Imip.
Franck e Michaelle têm parentes e amigos na capital haitiana e outras cidades do país caribenho. "Pelo MSN, pedi a uma pessoa que fosse na casa da minha mãe e quatro irmãs, que fica a 10 minutos do Palácio Nacional, sede da presidência, em Porto Príncipe. Então, soube que eles sobreviveram, mas estão sem comida e sem água. Também soube que o pai de Michaelle está vivo", conta o professor, formado em Sociologia e em Educação. Ele e Michaelle recebeiam bolsas de estudos no mestrado no valor de R$ 1,2 mil, por mês, cada.
Em caráter extraordinário, a reitoria UFPE conseguiu manter mais um mês do benefício. O casal devolveria o apartamento alugado na Cidade Universitária e chegou a doar parte dos pertences. "Agora, a gente vai ver com a faculdade o que pode fazer", diz Franck, protestante da Igreja Adventista, cuja crença é na volta de Jesus à terra. A maioria dos haitianos, 64%, professa a religião católica.
O futuro - "A minha preocupação principal não é quem morreu. São os 13 milhões de haitianos que estão sobrevivendo na miséria", afirma Franck. "Acredito que o Haiti tem que ser reconstruído. Mas não acredito que isso virá da Minustah", observa o professor, cujo tema de mestrado foi Globalização neoliberal e movimentos populares no Haiti. Minustah é a Missão das Nações Unidas pela estabilização no Haiti (Mission des Nations Unies pour la stabilisation en Haïti, em francês), criada em 2004 pelo Conselho de Segurança da ONU. Existem, segundo Franck, nove mil militares e 1,5 mil civis na Minustah. O efetivo do Brasil, que comanda a missão da ONU, tem 1,3 mil soldados. "Por que não levam mais médicos, professores e engenheiros?", questiona.
"São quatro anos de ocupação do Haiti e não se evitou desgraças", critica Franck, citando casos de assassinato, estrupos de mulheres e sequestros de haitianos. "A Minustah teve chance de reconstruir o Haiti no furacão de 2008, mas não fez", avalia. O Haiti viveu dois períodos de ditadura militar (de 1957 a 1990 e de 1991 a 1994). "A gente não teria capacidade de impedir o terremoto, mas poderia diminuir as consequências da tragédia, se as autoridades quisessem isso. Vou voltar com a minha família para aventurar um futuro no meu próprio país", diz,
Matéria publicada no Diario de Pernambuco, dia 16 de janeiro de 2010, página A21.
Foto: Renato Spencer/ especial para o Diario de Pernambuco.
Matéria publicada no Diario de Pernambuco, dia 16 de janeiro de 2010, página A21.
Foto: Renato Spencer/ especial para o Diario de Pernambuco.
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