quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Em nome do pai, do filho e da alfabetizacão

Gosto de conversar com os colegas, para ouvir o que eles trazem das pautas, das ruas, das esquinas, da gente ordinária. Esse diálogo que reproduzo aqui foi da colega Tânia Passos e um motorista de Kombi (que não posso citar o nome porque comprometeria o cidadão). Ele trabalha levando e buscando a mão-de-obra dos hotéis, pousadas, restaurantes e bares de Muro Alto, Porto de Galinhas e outros destinos abastados do turismo da cidade de Ipojuca (que só perde para o Recife em arrecadacão de Pernambuco. São 32 milhões, por mês). Segundo Passos, ainda assim, há uma carência danada de transporte para esse pessoal, que se reveza em dias de viagens. Bom, foi mais ou menos assim a conversa:

- "O senhor é o dono dessa Kombi?"

- "Sou eu o dono sim. Por que a senhora tá perguntando isso?"

- "Nada demais não".

- "Foi, eu comprei com o dinheiro das contas que eu peguei quando deixei de trabalhar num engenho no interior".

- "E o senhor sabe ler?"

- "Sei".

- "E o que tá escrito no vidro da Kombi?", falou Tânia, apontando para o adesivo "Deus é fiel".

- "Jesus pode mudar a sua vida".

- "Não é isso não. O senhor sabe escrever o seu nome?"

- "Mais ou menos".

- "Como foi que o senhor tirou a carteira de motorista?"

- "Eu não tirei. Eu trabalho sem ela. Mas a senhora não vai botar isso aí na matéria não, né?"

Ps: antes que o leitor do blog sinta falta da cedilha e me encaminhe ao EJA - como mereceria o motorista de Ipojuca - devo dizer que ainda não aprendi esse comando no teclado em inglês. Alguém se habilita a me dar essa aula?

Garota interrompida

A pauta, por si só, já era "barra", como diria a colega Marta Telles. Era dar conta do que a polícia teria descoberto do corpo de uma bebê de aproximadamente sete meses, encontrado na próximo ao Parque Dona Lindu, no bairro de Boa Viagem. Peguei o bonde andando e tudo que eu sabia não dava para escrever sequer um telegrama. Fui apurar a história com o delegado. Pois bem, 24 horas depois do "achado", a "autoridade" ainda nem tinha encaminhado o caso para a outra "autoridade", a GPCA (Gerência de Polícia da Crianca e do Adolescente). Heim? Como assim, delegado? Franzi a testa, cobrei a responsabilidade, mas foi como pedir resposta para um roubo de uma galinha, um furto de celular, sei lá. Qualquer coisa banal. Ainda estou engasgada com isso. Ah, e nem matéria teve. Por quê? Porque não tinha "nada de novo", avaliou quem me passou a pauta. 

O Ministério da Saúde adverte: Saci Pererê não é bom menino

Sempre soube, na mitologia brasileira, que o Saci Pererê é um menino. Um menino inventado - e que se criou - em tribos indígenas. Que perdeu a perna na capoeira - porque também herdou da mitologia africana algumas coisas. Sendo uma mais esquisita, digamos. Que eu só percebi ontem de manhã, assistindo a um programete infanto-juvenil na TV Cultura. Alguém me diga, por favor, por que o Pererê fuma tanto. O cachimbo na boca é marca tanto quanto o gorro vermelho. Meio feio para um menino. Bem que Ziraldo poderia reinventar a lenda, né?
 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O Rap do Menino Invisível


Nasceu com a pele branca,
com os olhos verdes,
com a sina da miséria,
de uma história impossível.
Era tudo que tinha o menino invisível.
O pai nunca voltou no navio que embarcou.
Atropelada na rua, a mãe nunca acordou.
E na memória do menino miúdo ficou.
Ficou na corpo, na agressão,
na noite escura da morte,
nos dias negros da solidão.
Ele inventou família, fez amigos e irmão.
Não foi para abrigo, se criou na agonia.
Cresceu, viveu, resistiu no Coque, no Ibura, nas "URs", na periferia.
Era como bicho solto aquele menino Pixote.
Mas não queria aquela sina, não queria a morte.
Foi aprender na escola e ensinar no Hip Hop.
Dançou break na rua, cantou rap na rua, pintou grafite na rua.
Fez leitura nos livros, se guiou nos mestres. Luther King, Muhammed Ali, Malcom X.
Literatura, português, geografia e história.
Se formar na faculdade foi outra grande vitória.
De camelô pra funcionário, de menino pra homem.
Ele escapou daquela sina, mas não esquece do ontem.
Quer conhecer sua raiz, seu sobrenome.
Quer viajar pro Ceará.
Quer fazer outra rima pra sua paz encontrar.

Na periferia de si mesmo

A rima é a alma do rap. O rap, a música do hip hop. O hip hop, a expressão da periferia cujo dia se celebra exatamente amanhã, no mundo inteiro. E fazer uma rima diferente, menos óbvia, com a pobreza, a violência e a morte do que a gente se acostumou a chamar de periferia é o rap de Sérgio Ricardo Cavalcante Matos. Tudo isso tem na história dele, homem branco nascido há 34 anos, no Coque, comunidade de 40 mil pessoas, com o pior Índice de Desenvolvimento Humano do Recife. De tão cheia de ganhos e perdas - algumas sem volta - a história de Sérgio é uma daquelas que a gente não sabe se conta de trás para frente ou de frente para trás. Ele não não conheceu o pai, apanhou em casa, perdeu a mãe aos oito anos de idade, perambulou na rua, conheceu armas e drogas, caiu de mão em mão, chegou à escola somente aos 10 anos. Mas escapou da sina ruim: se formou em Sociologia, encontrou pares no hip hop, foi (re)batizado de Sociólogo da Favela e doa o que aprendeu a outrosjovens que poderiam repetir a história dele. Hoje, Sérgio está na periferia dele mesmo. E procura a rima que (ainda) não fez. Quer viajar ao Ceará, para alguém da família encontrar.

"Se eu não acreditasse na minha própria mãe, ia acreditar em quem? Só era a gente no mundo". A pergunta foi uma resposta à outra, feita na entrevista. Sérgio lembra apenas de algumas coisas que a mãe repassou sobre a vida deles dois. Ela falou que foi expulsa de casa, no Ceará, porque engravidou. Contou que abortou, que fugiu para o Recife. Disse que sabia falar três idiomas, que viajou no mundo e foi torturada porque era militante política. Confessou que Sérgio nasceu de um "romance com um gringo americano que veio num navio ao Recife, partiu e nunca mais voltou". O nome dela: Sara Cavalcante Matos. "Ela era inteligente, politizada demais".

Sara era prostituta. "Ela não me falava, mas eu via que ela saía toda a noite para o Porto do Recife", lembra Sérgio. "Quando ela voltava com dinheiro para casa, ela me arrumava todo. Quando não, eu apanhava. Acho que ela descontava a dor e a revolta do mundo em mim". Era 15 de novembro de 1982 - data gravada a ferro quente na memória dele -, quando Sara foi atropelada, em frente ao porto. "Eu fiquei esperando em casa. Mas ela nunca mais voltou". O único documento familiar que restou nas mãos de Sérgio foi o registro de nascimento da mãe. Pelo papel, ela nasceu em 25 de dezembro de 1947, na cidade de Sobral, no Ceará. Era filha de Zilka e neta de Emílio e Zuleika.

Sara era negra. Os olhos verdes de Sérgio, diz ele, são herança do pai que ele não conheceu. São também os olhos de gato e muitas (sobre)vidas. "Eu era bonitinho, afilado, todo mundo queria ficar comigo, depois que Sara morreu. Eu costumo dizer que fui salvo pelos olhos verdes e pela pele branca. Acho que se eu fosse negro, teria menos chance. Mas, de verdade, o que me salvou foi a solidariedade das comunidades carentes", observa Sérgio. E o menino passou de mão em mão, até os 21 anos de idade, quando achou que já podia se sustentar. Trabalhou de camelô, vendendo pilha, "muamba" e veneno de rato. Tinha ponto na Rua da Praia, Rua do Rangel e Beco do Veado, no Centro da cidade. "Só comia se tivesse dinheiro. Foi minha primeira profissão, onde aprendi a encarar as pessoas". Mas as pessoas não viam Sérgio.

O futuro sociólogo se fez menos invisível quando entrou numa sala de aulas. "A única coisa boa no tempo sem casa foi uma família me colocar na escola, quando eu já tinha 10 anos", fala. Sérgio morou no Coque, Rio Doce, UR 2, Vasco da Gama. No Ibura, na escola estadual Lagoa Encantada, ele fez até o 3º ano. "Difícil não cair no tráfico. Até hoje vivo tenso, rude, com medo de passar fome de novo".

"Tentei passar logo no vestibular e não consegui. Mas eu não podia desistir. Não tinha alternativa. Aí, estudei mais um ano com o que tinha, português, literatura e história", relembra. "Escolhi Sociologia porque conheci muita gente na rua que se preocupava com os movimentos sociais do país". Sérgio se formou na UFRPE, em 2003, e prometeu aosprofessores que "até os 50 anos de idade" terá o doutorado. Ficou conhecido por levar a cultura de rua à academia e vice-versa. Daí o codinome Sociólogo da Favela. "De cara, as pessoas pensam que eu faço apologia à favela. Se me conhecem, entendem que a favela é a minha história de vida. Tudo que ganhei veio das ruas".

Adolescente, Sérgio imitava o grupo Menudo com outros jovens. "A gente dançava nos clube e ganhava uns trocados. Foi quando eu percebi que a arte seria um caminho para não me perder", conta. "Nessa época, o break era muito forte no Brasil. Fui me encontrando nessa cena, criando grupos e um espaço para o hip hop na cidade". Com a dança, a música e o grafite, os pilares do movimento cultural, Sérgio hoje ensina como se constrói um cidadão. Está à frente da Associação Metropolitana do Hip Hop em Pernambuco, único filho que botou no mundo. A lida com as questões da periferia rendeu a Sérgio uma profissão na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. É coordenador de cultura. Cria projetos de educação para jovens de 16 a 24 anos, em situação de vulnerabilidade social. Jovens que poderiam repetir a história dele.

Falta ao Sociólogo da Favela fazer par com ele mesmo. Falta a casa. Falta a família. Sérgio mora na Avenida Dantas Barreto, junto com o amigo rapper Tiger. "Enquanto não tiver meu espaço, vou achar que continuo perambulando, como quando era menino. Ainda vou encontrar nem que seja um parente em Sobral. É um buraco existencial. Um jeito de reconhecer a minha humanidade". Sérgio quer viajar para o Ceará. Quer fazer outra rima com o vazio, refletido nos olhos. Os olhos verdes que já foram a redenção e hoje são solidão. Quer sair da periferia dele mesmo.

domingo, 5 de outubro de 2008

Debaixo dos urubus

"Ó, os urubus!". Nem precisa apontar para o céu, porque os bichos são vistos de longe. Mas Ruby faz questão de interromper a conversa, para mostrar com o que convivem ela e os moradores do lugar. Nenhum detalhe do local, aliás, passa despercebido. Nem dela, nem de qualquer visitante. Difícil banalizar os sentidos sobre o que se vê, respira e escuta. De pronto, salta aos olhos o muro alto de cimento, bem reforçado com arame farpado e cerca elétrica. Ao redor, montes de barro cortados geometricamente. Monumentos que encobrem os restos das casas, comércio e indústria da cidade. O vento espalha o odor que sai das chaminés e o barulho do caminhão carregado anuncia mais trabalho a ser feito. Talvez os homens da polícia que guardam o lugar sejam os únicos à vontade com o cenário. Não Ruby. Norte-americana de 56 anos de idade, professora de música e habituada a paisagens de miséria do Brasil, dá aulas de canto a crianças do Morro do Cuscuz, ocupação de 219 famílias que se desenvolveu nas bordas do Aterro do bairro de Aguazinha, em Olinda, único destino das 30 mil toneladas de lixo produzidas no município, diariamente.

O encontro acontece na escadaria em frente ao terraço de dona Narcisa, uma das poucas moradoras que têm casa em alvenaria, porque o morro é quase todo de barracos que se sustentam na sorte. O coro ensaia nos degraus cimentados, ao gosto do sol e da chuva. A regente distribui as xerox das letras. Defronte dos meninos, ensina as notas mais simples. O dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó distrai as crianças dos urubus, do fedor dos dejetos fermentando sob os montes de barro, da barriga vazia, da violência dentro de casa. A "bagulhagem" ou catação do lixo fica sem a mão-de-obra dessas crianças, ao menos no ensaio. "Aqui, as pessoas se matam por lixo", testemunha Ruby, que batizou o projeto de Viver e Sorrir. Nestes dias, os alunos aprendem canções de Natal e os hinos do Brasil e Pernambuco, embora os versos nem sempre façam sentido para esses alunos. "Salve, ó terra de altos coqueiros/ De beleza soberbo estendal/ Nova Roma dos bravos guerreiros/ Pernambuco, imortal, imortal". O encontro se dá apenas às sextas-feiras, entre os turnos escolares. Ruby quer formar um coro para apresentações em escolas, no final deste ano.

Apresentar a flauta doce será o próximo desafio da professora. "Além de um teto para ensaiar, falta um lanche reforçado, porque com fome a criança nem consegue soprar", lamenta a professora, que faz parte da Organização Não-Governamental Círculo de Pernambuco. Ruby ensina canto e violino também em mais duas ocupações do Recife: Ilha do Destino, em Boa Viagem, e Comunidade do Pilar, no Centro. Essas têm mais sorte, porque já incluíram a dança e futebol no projeto. "Mas esse morro é o mais carente. Basta olhar para saber. Difícil encontrar um lugar pior do que esse", diz Ruby. Para subir no Morro do Cuscuz, Ruby ainda precisa da ajuda da professora de ballet e companheira de trabalho, Cláudia Frade. "Eu sou novata. Não tenho crachá de gente conhecida. Aí não sou louca de entrar sozinha", justifica.

Ruby Jean Boddy roda o Brasil desde que partiu da cidade natal, Los Angeles, no estado da Califórnia. Saiu de lá aos quatro anos de idade. Veio com os pais, missionários. Acompanhou o pai, Loren, na construção de igrejas e escolas no Sul e Sudeste do país. Por ser americana e não "bem-vinda" pelo regime militar de 1964, a família precisou se reservar em Pelotas, interior do Rio Grande do Sul. Esse foi o último destino de Ruby, antes de mudar para o Recife, aos 16 anos de idade, junto com a mãe, Caroline. Chegaram apenas de malas nas mãos e ficaram hospedadas de favor em um orfanato, no bairro de Nova Descoberta. "Conhecer favela eu conhecia. Mas eu fui poupada de entrar pelos meus pais. Então, essa foi a minha primeira experiência de verdade". Formou-se bacharel de música aqui. Logo decidiu dividir o conhecimento da academia com as comunidades que ia conhecendo. Hoje, no Morro do Cuscuz, Rubby nem aparenta o desgaste de quem convive com a carência de tudo. Aponta para os urubus no céu, mas também mostra caminhos às crianças do aterro. A música no morro preenche o silêncio das políticas públicas.

A mãe e o medo
A família de Andréa Mercês, de 33 anos de idade, é uma das 219 do Morro do Cuscuz cadastradas na Prefeitura de Olinda, em 2003. A mulher, três filhos menores e o companheiro moram em uma das poucas casas em alvenaria do lugar. Mas a miséria com que convivem tira a graça de quase tudo. As aulas de música da professora Ruby dão um tanto de paz à mãe e diversão aos meninos. O mais velho, de 12 anos, já sabe de cor os versos da primeira canção que conheceu dia desses, "Falai pelas Montanhas". A menina, filha do meio, tem outro talento. Aprende taekwondo, arte marcial que já lhe deu medalha.
A renda da família, conta Andréa, vem da Bolsa Família (R$ 112) e da "ôia" do companheiro, do bico como ajudante de pedreiro. Nada certo. "Faz cinco anos que eu moro aqui, viu? Só que pra mim é muito mais. A gente aqui só tem a Deus. Aqui, a violência, as drogas, essas coisas, começam desde cedo. Tenho medo pelos meus filhos", fala a mãe, na porta da casa de dois cômodos - sendo um deles a cozinha, ondedormem as crianças, dividindo um beliche. O quimono do taekwondo fica dobradinho no guarda-roupas coletivo, no quarto do casal. O banheiro, que não existia quando a família chegou, foi construído aos poucos, com retalhos de cerâmica e uma pia quebrada que achou no lixo.
Andréa aprendeu a escrever o próprio nome há pouco tempo. Nem o da filha - única da casa que aprendeu a ler de verdade - sabe ainda. As crianças estão na escola. "Ganhei a formatura faz um mês. Meu sonho é aprender matemática, porque antes de colocar um produto no cabelo, é bom saber ler, da quantidade, do tempo", fala a mãe, que, para não ver os filhos com fome, cobra dois reais por uma escova no cabelo das mulheres da vizinhança. Tem chapinha e secador, que conseguiu comprar à prestação. "Eu faço o máximo, para não viver na miséria". Nesse dia, o almoço e o jantar foram feijão preto e cuscuz.

O menino e o entulho
Um facão preso na canela, para cortar os entulhos, meião até os joelhos, para não pegar "germes", e boné, apenas porque encontrou no lixo. É assim que trabalha Joaquim (nome fictício), de apenas 15 anos de idade, no Aterro Controlado de Olinda. Luvas não usa porque atrapalha a "bagulhagem", fala o menino, cuja experiência vem dos 10 anos. Por cada quilo de plástico que consegue bagulhar ou catar, ganha 35 centavos. No final de cada semana, diz o menor, chega a tirar R$ 60 - equivalente a 20 quilos ou cerca de 370 garrafas PET. Parte do apurado fica com a mãe, que cria mais três filhos. O padastro e o irmão fazem o mesmo trabalho. A casa da família, aliás, tem vista para o aterro. Dali para os montes de lixo é um pulo. "Venho todo dia. Tem até noite que eu venho, porque tem pouca gente", explica o menino. Nesse dia, havia juntado 40 quilos de plástico, desde às quatro da manhã. Joaquim está fora da escola desde o ano passado. Não sobra tempo nem cabeça para a música da professora Ruby. Vez por outra, vê gente brigando, puxando faca por material. Apenas dois policiais militares, por turno, guardam o lugar. O menino é apenas um dos menores na bagulhagem. Na placa fixada no portão de acesso ao lugar, um contra-senso: "proibida a entrada de crianças e adolescentes".

Foto: Cecília Sá Pereira.

domingo, 21 de setembro de 2008

Без перевода, obrigada















Nem me pergunte o nome deste senhor aí em cima e embaixo, que não sei responder – nem saberei, infelizmente. Conheci – posso assim dizer apesar de ignorar a sua história - em São Petersburgo, cidade da Rússia cheia de armadilhas para os olhos. E de contradições daquelas que sacodem a gente lá para o centro da vida, para dentro das páginas amarelas, cheirando à estante de madeira, desgastadas por traça. Em pé na calçada – sempre um bom lugar para espiar o cotidiano - estava este homem, quando fiz as fotos, em julho deste ano, alto verão. Ficava na Avenida Nevsky, uma versão da 5 Avenida de Nova York. Lojas chiques, caras, de grifes importadas, americanas, italianas
e francesas vendiam as modinhas da estação. Foi, talvez, a única vez na viagem que não precisei do cirílico – aquela mistura de grego com hebraico da escrita russa - para ler as fachadas. GAP, Valentino, Dior... Bom, mas o que queria mesmo era saber o que este homem segurava nas mãos. Será que ele vendia algo também? De frente para ele, toda forasteira, travei. Somente percebi que um dos livros era um romance de espionagem - dava para ver pela capa. Já o outro eu soube a muito custo, depois de obter o livro de segunda mão - mais por instrumento de aproximação com o homem do que pelo conteúdo - e consultar Anna, a recepcionista do hotel onde fiquei. Eu havia trazido A História de São Petersburgo. Claro que valia saber de "Pedro O Grande", da aristocracia, de Lenin, de Trotsky, dos soviets, bolsheviks e comunistas, mas não mais do que da história daquele homem. Não consegui fazê-lo me entender. Naquele dia, tudo que eu pronunciava em russo era Без перевода (fala "spasiba"), ou, obrigada. Mesmo assim e sem saber quanto ele cobrava, se é que cobrava, troquei 30 rublos, a moeda local, pelo livro. Ou, 1,18 dólar. Ou, R$ 2,37, na cotação da data desta postagem. Ele sorriu. Eu saí. Desconcertada. Saí andando, flanando pela avenida, intrigada com aquele riso, segundo e último diálogo entre eu e ele, depois das fotos. Ignorante na cultura daquele homem, só consegui dúvidas. Senti um certo mal resolvido, um incômodo. Ele havia sorrido do pouco que deixei ou porque fui a sua única cliente, por todo o dia? Ou os dois? Continuei andando com uma certa vergonha de olhar para trás. Mais um dia na cidade e descobri que uma garrafa d`água de 300 ml custava 50 rublos, a corrida de ônibus, 20 rublos - transporte público é um ponto fraco da cidade que está entre as dez mais visitadas do mundo -, um sanduíche com refri na McDonald`s, 120 rublos, e um prato de sopa num fast food, 200. O guia da Lonely Planet informava que a renda mensal do são petersburguense era de 15.000 – pouco mais de dois salários mínimos do Brasil (R$ 415). Depois, também fiquei sabendo, por duas garis, que os idosos "sem aposentadoria" da cidade ou trabalham limpando (ruas, parques, lanchonetes) ou vendem livros e objetos pessoais, a exemplo dos ex-combatentes - São Petersburgo já passou por três grandes guerras e duas revoluções -, que se desfazem de comendas, medalhas, farda etc como se fossem matrioskas, as bonequeinhas russas encaixadas umas nas outras, souvenir mais popular do país. "Miséria é miséria em qualquer canto". Só numa manobra do inexorável eu poderia rever aquele senhor "invísivel". Esconderá, para sempre, um milagre - ao menos para mim e este blog. Pode ter sido um professor do conservatório de música erudita. Pode ter sido pai de cinco filhos. Pode ter pago todos os impostos ao governo. Pode ter trabalhado numa repartição pública, num banco norte-americano, vendido seguros de vida, carros, barcos. Contaria, ele mesmo, a história da Rússia? Vida ordinária.

Ps: o livro que eu trouxe tem uma dedicatória. Mas, essa história fica para a próxima postagem.

Custo de vida em São Petersburgo (em rublos)
Garrafa d`água 300 ml – 50.
Vodka razoável – 90.
WC público após a vodka – 15.
Boneca Matrioska, souvenir famoso – 200.
Sanduíche McDonald`s – 120.
Prato de sopa em fast food – 200.
Táxi – 400 (bandeirada mínima; se for clandestino a viagem é negociada).
Minibus – 20 (no máximo 30 pessoas). Renda mensal, média, de um cidadão de São Petersburgo – 15.000 (fonte: Lonely Planet).

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O eremita moderno



Mendigo para uns. Profeta para outros. Louco para a maioria. Misterioso para todos. Esta é a história de Zé Carlos, um morador de rua que faz das movimentadas vias de Boa Viagem o seu deserto particular.

Em vez do manto em cambraia cobrindo todo o corpo, a calça jeans, o casaco em nylon com capuz e o tênis. No lugar da barba crescida, escorrida queixo abaixo, os pêlos aparados. Ao invés do cajado e da lanterna nas mãos, o aceno de bom dia, boa tarde e boa noite. Zé Carlos é um eremita. Mas um eremita moderno. Que não usa manto, não tem barba grande, cajado nem lanterna, como o da religião e o da carta do tarô. Que não se isolou da gente. Que não nega a palavra. Ao contrário. Mesmo no silêncio profundo, condição de um eremita, é capaz de falar aos outros pelo olhar. Zé Carlos compra pipoca, biscoito, bombom, cerveja, como qualquer um da gente. Conta de poder e política no Brasil - ao jeito dele, mas conta. Descansa da rotina não num deserto ou esconderijo, mas onde qualquer um pode vê-lo, na esquina da Rua Padre Carapuceiro com a Rua dos Navegantes, em Boa Viagem. Caminha diariamente na Avenida Boa Viagem. Contempla a natureza e a gente, como se ainda quisesse tirar conhecimento delas. É um eremita moderno. Sem opinião ou crença formada. Apenas existe na paz.
O eremita tal qual o da religião e o do tarô escolhe viver isolado, afastado da gente. Faz isso para descobrir conhecimento no que está em volta. Mas Zé Carlos - nome que tem em Boa Viagem - não é assim. Até faz sua viagem pelas ruas da vizinhança sozinho, mas não solitário. Vai diária e pontualmente (perto do meio-dia) ao portão de pedestres que faz fronteira entre o Shopping Center Recife e uma ilha de prédios de negócios. Cumprimenta quem passa por ele. A hora do almoço aumenta o vai-e-vem. E bem-aventurado o que receber um suave "bom dia. Como vai? Estava viajando?". Soa quase como um Sermão (moderno) da Montanha: "bem-aventurados os que promovem a paz, porque são chamados de filhos de Deus". A paz, como já mostraram Jesus Cristo, Buda e outros religiosos, está na síntese. Num simples cumprimento de Zé Carlos.
O eremita Zé Carlos não parece sê-lo por penitência, religiosidade, misantropia (aversão ao ser humano) ou apego à natureza, como se diz no tarô. Em verdade, quem o conhece, nem cobra motivo. Na esquina, no fiteiro, no self-service, no calçadão ou na portaria dos prédio vizinhos à esquina onde dorme, ninguém sabe seu nome completo, idade, ascendência, se teve casa, carro, cachorro, emprego. Ninguém sabe, sequer, o tanto de tempo ele vive na rua. É como se todo mundo já admitisse aquele homem ali, sem passado. Guardião do presente. Profeta - como também ficou conhecido na vizinhança - do futuro.
Zé Carlos compra biscoito recheado para dar às crianças que estão no sinal de trânsito. Arranja pipoca para dar aos pombos. Abre mão da quentinha de comida oferecida pelo vizinho do bairro, quando já foi satisfeito com outra doação. Diz que aquele alimento deve servir a quem precisa mais do que ele. O pouco dinheiro que, enventualmente, aparece no bolso na calça jeans é dividido com outros em situação de rua também. Ele, ele mesmo não pede. Ao contrário, ensina a quem convive com ele a não ter pena nem dó. Existe uma espécie de pacto com a comunidade. Ninguém incomoda ninguém. Silêncio e respeito de ambas as partes. Mas, por que Zé Carlos haveria de se incomodar, se tem elegância até para aceitar um dia inteiro com apenas uma sopa na barriga? No tarô, tirar a carta do eremita significa que algo perdido será recuperado, que uma revelação virá. E o que é dar biscoito recheado às crianças no sinal, se não lhes devolver um pouco de infância?
O casaco em nylon preto cobre Zé Carlos à noite. É o manto de proteção. E só, na esquina do bairro nobre. Ele não tem apegos. A trave da placa de trânsito - de sentido proibido - serve de apoio para a cabeça. Somente um papelão separa o corpo dele da calçada de pedras portuguesas bem cuidadas. Mas ele nunca fez queixa a ninguém. Nunca reclamou. O farol alto do carro não o acorda. Ele nem se mexe com o cachorro que se aproxima curioso. Zé Carlos nunca reclamou. Também nunca viveu diferente. E nunca, no caso dele, não é exagero. Porque a rua estica a vida. Acostuma os olhos. Banaliza as coisas. Deixa a gente ordinária.
Mas Zé Carlos não é gente ordinária. Ele resiste, embora faça, para ele mesmo, as mesmas mínimas coisas, todos os dias. Há nove anos, o Diario o conheceu. Em 17 de outubro de 1999, o jornal publicou a reportagem com as "figuras típicas das ruas da cidade", os "exóticos que compõem a paisagem do Recife". Já naquele dia, mais falante que hoje, ele disse que "enquanto a sabedoria não tomar o lugar da pobreza e da maldade, o mundo não vai ter jeito". E proferiu: "Deus não quer que a gente ande com bíblias debaixo do braço ou viva enfurnado em templos. Ele só quer o amor e a paz". No reencontro, na reportagem de agora, ele é o eremita moderno, que vai ganhar a "chave do mundo". No tarô, não existe uma carta ruim. E quando uma carta sai repetida, não é coincidência. Zé Carlos existirá sempre.


O reencontro
por Jaqueline Maia, fotógrafa

Ao ser publicada pela primeira vez em um jornal, uma imagem deve trazer informações capazes de dar veracidade aos fatos narrados no texto da matéria. Após a publicação, a foto vai para o arquivo e ali pode ficar por vários anos, podendo ser reutilizada ou não. Mas quando essa foto é publicada pela segunda vez, ela adquire outro siginificado: resgatar da memória referências, histórias e histórias que estavam guardadas, além de ressaltar a importância da própria fotografia em questão. Quais fotos já foram vistas duas vezes em um mesmo jornal? Poucas, acredite.
Um personagem que volta às páginas de um jornal, pelas mãos da mesma fotógrafa, após nove anos de arquivo, é um acontecimento raro. Por isso, publicou-se, aqui, uma foto antiga e uma nova do mesmo personagem. Para a maioria dos leitores, Zé Carlos passa a existir agora, no momento em que lê a matéria. Para a fotógrafa, o Profeta, pois foi com esse nome que o conheci lá atrás, é uma história (ou estória?) muito bacana para guardar e contar.




terça-feira, 5 de agosto de 2008

De carona na Kombi


Esta é a história de Naná, o motorista voluntário que leva crianças à escola, todos os dias, para fazer valer o direito à educação.

"Bora, bora, bora. Todo mundo se ajeita, coloca a mochila para dentro, porque tá na hora de partir. Alguém ainda não assinou o livro?". Essa reza o autônomo Naná tem todo dia, antes de fazer duas viagens na Kombi, para levar 30 crianças à escola pública municipal Nilo Pereira. Sai do lendário bairro do Poço da Panela, ainda sob o sol frio, em direção à Casa Amarela. O trajeto de dois quilômetros, quando feito a pé, leva meia hora. Isso se não chove, motivo para faltar à aula. Mas, na carona voluntária de Naná, não chega a dez minutos. E o vuco-vuco na Kombi só não é maior por conta disso. O futebol do final de semana, a música da moda, a cena da novela, a prova do dia, tudo distrai os passageiros e o motorista, a caminho da cidadania.

A história da Kombi solidária existe há seis anos. A primeira viagem de todas aconteceu justamente pelo dia das crianças. Foi o jeito que Naná achou de presentear a meninada do Poço da Panela. Começou com cinco alunos. Na manhã seguinte, já havia 12. E uma semana depois, 32. Para agüentar na missão, conta com o apoio da Confraria dos Amigos do Poço, "um grupo de boêmios, moradores ou visitantes do bairro", explica Naná, batizado de Evaldo Gomes de Moura, nascido em 1967 no município de João Alfredo, criado em Camaragibe e morador do Poço há 20 anos. A tal confraria é que passa o caderninho das contribuições. "Um dá R$ 2, outro dá R$ 5, R$ 10". O dinheiro serve para abastecer de gás a Kombi branca 98 e fazer algum reparo essencial.

A Kombi abre às 6h30. Fica parada à espera dos passageiros defronte de dois patrimônios do Poço da Panela (e, por que não, de Pernambuco): a Igreja de Nossa Senhora da Saúde e o bar de seu Vital. O primeiro foi construído no século 19, como promessa feita pelo capitão Henrique Martins, dono de terras no povoado. A graça, atendida, era curar a esposa de uma doença grave. Seu Vital mora desde 1964 no bairro e há 38 anos tem o comércio que nunca mudou de lugar. "A venda-boteco-abrigo emocional de seu Vital é onde uma parte da população recifense se casa e outra parte bebe, celebrando os noivos, os jogos de dominó ou qualquer coisa em movimento", define o jornalista e um dos colaboradores da Kombi, Samarone Lima.

Quem vai na condução tem que assinar o livro de presença. Daiana, Dennys, Júlia, Maria, Romário, Tiago, Túlio.. Até dar 15, número bastante para Naná fazer a primeira viagem. O motorista solidário confere nome por nome. "Ele pede para escrever o nome completo, para ver se a criança tem a letra bonitinha, se tá escrevendo direitinho, se sabe fazer todo", conta a dona-de-casa Sandra Lima, de 45 anos, mãe de Sandrini, de 10, aluna da 4ª série da escola municipal. "Ele motiva mais, cobra e se relaciona direto com a escola. É um controle que ajuda os pais". Mas Sandrini tem a própria explicação para gostar da história: prefere a "bagunça" da Kombi à caminhada de quase dois quilômetros, logo cedo da manhã, atravessando três avenidas bem movimentadas.

Naná não precisa pedir licença para entrar na Nilo Pereira. "Ele é o elo entrea escola e a comunidade. É praticamente a família dessas crianças. Ele sabe de tudo delas e da escola. Sabe quando tem reunião, quando não tem aula, quando o aluno é suspenso. Diminuíram muito as faltas e os atrasos, depois que ele passou a fazer esse trabalho. Pena que ele não tenha o reconhecimento do município. Ah, se todo mundo tivesse um Naná desse, a vida seria outra", comenta a diretora da unidade, Damaris Diniz. A escola tem cerca de 1,1 mil alunos matriculados, em turmas até a 8ª série.

Romário Baltar, de 10 anos, aluno da 4ª série, vez por outra "ganha" um recadinho da direção da escola. "É, eu sou invocado, tiro muita brincadeira. Mas esse ano eu tô melhorando", admite o menino, que foi batizado com esse nome porque nasceu durante a Copa do Mundo de 98, na França (justamente neste ano o atacante Romário foi cortado da Seleção Brasileira). "Quer dizer, foi minha mãe que disse isso, né?". E apontando para o amigo Naná, Romário, o da Kombi, solta outra: "mas eu vim dessa pança aqui também". Se qualquer criança adoece, o destino é o posto de saúde do Poço.

Aprender a dirigir foi uma necessidade para Naná. Começou a trabalhar muito cedo, aos 11 anos de idade, junto com o pai, num supermercado. Chegou a ser gerente e precisou de um carro. A lida interrompeu os estudos dele no segundo ano do 2º grau. Hoje, com a mesma Kombi que leva a criançada à escola, Naná ganha a vida, fazendo frete para um buffet. E só quando ele tem algum compromisso com a empresa é que a carona da criançada não acontece. Mesmo assim, deixa avisado com antecedência. "Se alguém da comunidade se separa, também sou chamado para fazer a mudança. Se alguém passa mal, a Kombi vira ambulância. E em dia de jogo do Santinha, é a Kombi Coral", fala Naná. A esposa, Thereza, faz transporte escolar particular.

"Eu sofri um acidente de trânsito em 96 e recebi um seguro disso. Com o dinheiro, dei entrada na primeira Kombi e dei o resto em 36 meses. Essa 98 também foi financiada em três anos, mas tá paga", diz o voluntário. Naná não sabe o nome do santo padroeiro dos motoristas, mas São Cristóvão certamente sabe (e protege) o de Naná. "A Kombi nunca me deixou na mão no caminho para a escola".

Foto: Tereza Maia.
Matéria publicada no Diario de Pernambuco, em 06 de março de 2008.

domingo, 27 de julho de 2008

Do aeroporto à Lua três vezes

Por dia: 200 quilômetros rodados. Mensalmente: 5,6 mil quilômetros. Ao final de um ano todo: 62,2 mil quilômetros. Total de profissão: 2,5 milhões de quilômetros em viagens para cima e para baixo pelo país. Se astronauta fosse, João Rafael teria ido e voltado da lua três vezes - e ainda sobrariam milhas. Faria o caminho do escritor francês Júlio Verne, A volta ao mundo em 80 dias, 69 vezes. Mas seu João "Doido" - apelido entre os colegas - anda no asfalto mesmo. Aliás, nunca sequer entrou numa aeronave. É o taxista 001 de uma cooperativa. Tem 41 anos de carreira só no Aeroporto Internacional do Recife. Orgulha-se de ser o mais antigo na ativa. Começou a trabalhar no tempo em que avião tinha hélice em vez de turbina, voar era coisa somente de "bacana", a moeda cruzeiro pagava a corrida, Juscelino Kubitschek mandava no Brasil e motorista - cujo dia é comemorado justamente hoje - era "chofer".

Férias, João "Doido" nunca tirou. E olhe que são 57 anos de profissão, incluindo os 41 do aeroporto. A única vez que se deu ao luxo de descansar foi quando tinha um Chevrolet Ômega. "Esse carro era o preferido da presidência. Então, quando Fernando Henrique veio inaugurar uma barragem em Serra Talhada, trabalhei na comitiva", lembra o taxista, sobre 1998. Ah, o descanso ficou por conta do hotel e comida de graça, durante sete dias. Antes de táxi, dirigiu caminhão e "Marinete", espécie de Kombi, fazendo frete e transportando gente do interior à capital e vice-versa - não existia rodoviária e a parada era no Parque 13 de Maio, no Centro. "Naquela época, só tinha comércio no Recife. Depois que inventaram a estrada, a coisa se espalhou". Antes de motorista, foi trabalhador de roça, junto com o pai, em Araruana, cidade paraibana onde nasceu e que abandonou, aos 16 anos de idade. "Chegava o final do ano e eu só ganhava dinheiro para comprar uma roupa de mescla azul e uma percata pega bode. Andei dois dias para chegar em Guabiraba. Tava sonhando ser carregador de caixeiro viajante, da estação de trem para o hotel. Aí, uma dona de pousada me chamou para trabalhar como gato de hotel, que hoje é chique, chamado de re-cep-ci-o-nis-ta", soletra.

De "gato de hotel", seu João pulou para motorista. Tinha 19 anos. A primeira "carta para dirigir", não esconde seu João, foi "arranjada" pelo fazendeiro Chicuta Pedrosa, para quem trabalhou de "chofer". "Naquela época ele era coronel, né? Até o meu nome ele assinou, porque eu nunca entrei numa escola", confessa. Assinar o nome, aliás, foi a única coisa que ele aprendeu. Ainda hoje não sabe a diferença da letra A para a B. Mas sabe da vida. E muito. "Não leio as placas, mas conheço tudo desse estado. Basta gravar a estrada, o mato, a rua, o muro, a cara das pessoas. Só errei uma vez, fui bater em Garanhuns em vez de Canhotinho, porque me confiei na leitura do passageiro, que só depois de rodar bem muito me disse que também era analfabeto". Os 11 filhos (sendo oito ainda vivos), ao contrário dele, foram à escola. "Eu não tinha tempo de visitar a família, quanto mais de aprender. E olhe que a minha esposa era professora". As cartas de amor do casal quem escrevia e lia para seu João era um amigo "bombeiro".

Sem distinção - Seu João não deixa um passageiro carregar mala nem peso. Acha que é obrigação do taxista - ou um costume dos tempos de carregador na estação de trem. Faz viagem com muita gente famosa. Elba Ramalho, Genival Lacerda e o jogador de futebol Rivaldo são os que a memória gravou. Mas, para ele, tanto faz se é artista, político, jogador de futebol ou anônimo. "Eu não trato com diferença porque também não quero que façam comigo". Já viu muita coisa dentro do carro. Tem um repertório sem fim de histórias para contar. "Já teve muita briga, muito rala e rola e mulher deixando o carro no estacionamento do aeroporto para encontrar o outro". Mas, para ele, tanto faz falar ou não. Seu João está ali para trabalhar. A vida toda. "Sustentei os meus filhos e agora ajudo a criar os meus 30 netos e 30 bisnetos com o táxi". Ele mora com um dos dois filhos que também são taxistas, a nora e duas crianças, em Prazeres. O apelido "Doido" foi dado pelos colegas porque topa todas. Um dia desses, fez uma corrida até Afogados da Ingazeira, a 386 quilômetros do Recife, para ganhar R$ 600. "Relampeava mais do que tudo, mas eu precisava".

Se a primeira "carta de dirigir" foi arranjada pelo coronel, a última custou um pouquinho ao seu João. "Da última vez que fui renovar, em 2006, o médico ficou achando ruim. Me disse para não dirigir mais. Aí, eu falei: doutor, eu tenho a carta há 57 anos. Olhe o meu prontuário. Veja se eu já provoquei algum acidente. Ou o senhor bota ela (a secretária) para encher a ficha (do Detran) ou eu volto para a enxada". Seu João nunca pensou em ser outra coisa na vida. Quem viaja no táxi dele, entende direitinho por quê.

(texto publicado no Diario de Pernambuco, em 25 de julho de 2008).

video

sábado, 12 de julho de 2008

Um certo Tchaikovsky


(texto publicado no Diario de Pernambuco, em 11 de junho de 2008).

Foi assim que Tchaikovsky Johannsen Adler Pryce Jackman Faier Ludwin Zolman Hunter Lins veio parar nesta página de jornal. Um curioso se interessou pela combinação de nove nomes e somente um sobrenome, teve acesso ao prontuário do Instituto de Identificação Tavares Buril (IITB) - órgão da Secretaria de Defesa Social que emitiu a carteira de identidade daquele cidadão - copiou o documento e distribuiu e-mails apresentando como se fosse piada, coisa de circo, de outro mundo. Mas, a mesma internet usada para espalhar o inusitado também deu outras pistas do dono do nome, um menino de 17 anos, admirador de música clássica, regente de coral, autodidata em alemão, arrimo da família e morador da Mangueira, bairro simples na Zona Oeste do Recife. E essa história, essa sim, vale a pena distribuir em e-mails e contar nessa página.

A ópera do nome
O pai de Tchaikovsky, Ricardo, precisou procurar a Justiça para fazer a certidão de nascimento do filho com os nove nomes e somente um sobrenome. "O primeiro cartório não quis fazer o registro de jeito nenhum. O segundo me pediu para procurar um juiz e trazer uma autorização por escrito. Foi o que eu fiz. O juiz achou esquisito um nome tão grande, todo estrangeiro, me falou da dificuldade de tirar outros documentos, mas eu não desisti. Eu tinha certeza que estava fazendo a coisa certa", recorda o pai. Ricardo tinha certeza, apesar do detalhe: quando ele procurou a Justiça, apresentou 19, em vez de nove nomes próprios. O juiz fez Ricardo abrir mão da metade.
A carteira de identidade e o CPF contam outra parte da ópera que é a vida desse menino, desde o seu começo. "A gente passou uma manhã e uma tarde todinha no Instituto Tavares Buril porque o nome completo não cabia na cédula de identidade. Foi preciso esperar o programador de informática dinumuir o tamanho das letras no computador, para entrar o nome todo. Por lei, nenhum nome pode ser abreviado no RG ou CPF. Não sei como a Receita Federal deixou passar no CPF três nomes (Pryce, Zolman e Hunter) somente com as iniciais", estranha Ricardo. Tchaikovsky aprendeu a ler e a escrever em casa, com a mãe, Jane. Depois do alfabeto, ela ensinou o menino a fazer o próprio nome, completo. "Nesse tempo a gente teve que tirar ele da escola porque, de tanto ser repreendido por uma professora, ele ficou traumatizado. Não queria mais ir para escola alguma. Então, se eu estava desempregada, podia ficar com ele, educando e trabalhando a cabecinha dele. E eu fui aos poucos tirando o medo dele", diz Jane. Tchaikovsky não levou mais do que dois meses para fazer o próprio nome, letra por letra. "Ele nunca estranhou o tamanho do nome. Sempre achou normal. Porque tudo mais na vida dele sempre foi normal. Ele tem uma família que se esforça e tem amor".
O menino continou levando na boa. No colégio onde faz o terceiro ano do ensino médio, ele é Tchaikovsky ou Lins, na lista de chamada. No trabalho como estagiário da Celpe -, mesmo com muita timidez - tal como o famoso compositor russo de música clássica Tchaikovsky - ainda explica a origem do nome aos colegas. "Eu preciso ir a muitos andares do prédio. Quando eu entro numa sala e me apresento, tenho que repetir. Aí, junta todo mundo do setor para ouvir eu explicar os nomes. Muita gente acha interessante", conta Tchaikovsky, chamado em casa e pelos colegas de "Tchai".
E o que "Tchai" explica é o seguinte: "Eu não era para ter nascido. Então, como filho único que eu seria, meus pais quiseram me dar um nome especial. E a música clássica é uma coisa especial na nossa família. Minha mãe e meu pai se apaixonaram através da música clássica. Então, eles escolheram o meu nome nos discos de vinil que tinham em casa. Tchaikovsky foi de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, um dos mais importantes compositores russos. Johannsen veio de Arne Johannsen, um regente alemão. O Pryce foi de outro regente, Yuri Pryce. Ludwin deveria ser do mestre alemãoLudwig van Beethoven, mas saiu errado no registro". Somente Zolman e Lins não têm origem na música. O primeiro, segundo "Tchai", é bíblico. "Do hebráico significa homem gerreiro", ensina. Lins é o sobrenome da família. "Se eu tivesse nascido menina, seria difícil. Porque existem poucas musicistas clássicas", acrescenta.

Do vinil ao celular
Os discos de vinil que inspiraram o nome do menino estão guardados como relíquias na estante da sala e sobre guarda-roupas. Um dos mais valiosos é do O Lago dos Cisnes, primeiro balé com orquestra do mundo, criado justamente pelo russo Tchaikovsky e encenado nos quatro cantos do planeta, desde 1877 - quando estreou no Teatro de Bolshoi, em Moscou, na Rússia. Mas a radiola toca também Antonio Lucio Vivaldi, Johann Sebastian Bach e Wolfgang Amadeus Mozart. A família justifica o gosto, em coro: "Traz calma, serenidade. Faz a gente viajar". Samba, funk, brega, nada mais entra em casa. As óperas e outras obras que o pai baixa no computador ficam salvas em CDs e no celular de Tchaikovsky. O aparelho é também tocador de música. Ele dorme e acorda ouvindo aquilo que já conheceu no vinil. Dorme e acorda sonhando em ser um daqueles compositores, maestros ou regentes que estão nas capas dos discos. O parente musicista mais próximo da família Lins é um bisavô do menino, que foi maestro de bandas e fanfarras no município de Belo Jardim, no Agreste de Pernambuco, a 187 quilômetros do Recife.

Solista do próprio destino
Do computador instalado no corredor da casa, os pais de Tchaikovsky tiram as partituras para ensaiar. Ricardo e Jane são regentes de três corais de igreja. O menino vai no mesmo caminho. Mas sozinho. O solo de Tchaikovsky, da Mangueira, está sendo preparado por ele mesmo. "Nunca obrigamos ele a gostar de nada. Tanto, que só agora ele está se dedicando por vontade própria", diz a mãe. Enquanto não presta vestibular para física ou química no final deste ano - não estranhe a opção pelas ciências exatas porque música também é matemática, é cálculo - vai aprendendo a solfejar, ou, a distribuir as vozes, dar os tons, valores e a afinação de cada uma. Para entender melhor as partituras, escritas principalmente em alemão, ele descobre o idioma. Tirou da internet as apostilas e o áudio de um curso gratuito. "A Alemanha é um berço da música clássica. Eu sempre me transporto para lá quando estou deitado na cama, ouvindo no celular". Um dos desejos de Tchaikovsky é conseguir uma bolsa de estudo aqui mesmo, no Recife, para aprimorar o conhecimento em alemão.
Neste mês, ele vai se inscrever no Conservatório Pernambucano de Música. O pai ensina o básico que ele precisa saber para passar pelos testes rigorosos. O curso "intensivo" se dá no programa de computador que imita um órgão - porque o de verdade está queimado, encostado no quarto do menino. "O piano é o instrumento mais completo. E eu desejo estudar muito piano", revela o aprendiz. Tchaikovsky também já está escolhendo o repertório que vai apresentar no concurso de música promovido pela empresa onde ele trabalha, este ano.

O primeiro ato
Mas a história de Tchaikovsky Johannsen Adler Pryce Jackman Faier Ludwin Zolman Hunter Lins, que um dia foi resumida a uma piada na internet, nem era para ter existido. Nem era para estar aqui, nessa página de jornal. A mãe, Jane Silva, e o pai, Ricardo Lins, tinham problemas de saúde e financeiros que impediam a gravidez e a criação de um filho. Mas ela, principalmente, não abria mão da maternidade. E, quase como num milagre, Jane conta, engravidou, depois de dois anos de casada. O sexo do bebê só foi descoberto pelo casal na hora parto. Jane e Ricardo queriam e pressentiam que seria menino mesmo. E desejavam tanto, que nem em nome de menina os dois pensaram. Os nove nomes próprios e somente um sobrenome foram o jeito de marcar aquele acontecimento de 11 de janeiro de 1991. O casal descobriu depois que não podia ter mais filhos.
Tchaicovsky Lins, que nem era para ter nascido, hoje ajuda a criar a família, digamos assim. Trabalha como auxiliar administrativo do departamento jurídico da Celpe, desde março passado. Pelas quatro horas de expediente, de segunda a sexta-feira, recebe a remuneração de R$ 415 e passagens de ônibus. Também terá direito ao 13º salário proporcional ao tempo de trabalho. O início dessa experiência, sorte de pouco jovens brasileiros, está escrito justamente na internet. No site de pesquisa Google, o nome completo do menino aparece na lista de alunos dos cursos de capacitação do programa federal Primeiro Emprego, criado em 2002 para colocar jovens carentes no mercado de trabalho. "Fiquei sabendo desse programa pelo jornal. Levei logo o currículo do meu filho à Agência do Trabalho, na Rua da Aurora, no centro da cidade. Depois de uns oito meses recebi um telefonema do Instituto Empreender, dizendo que Tchaikovsky tinha sido escolhido para participar de um curso de auxiliar administrativo com o Projeto Enter Jovem. Esse instituto é que banca as aulas, junto com o governo do estado. Mas aí, começou outro drama. Como ele ia estudar no colégio e no programa, sea gente não tinha carro nem dinheiro para as passagens?", lembra Jane.
De bicicleta, claro, único meio de transporte da família. Foi o pai quem levou Tchaikovsky na garupa para o Colégio Ferroviário, no bairro de Afogados, onde fez o curso de capacitação, no Bongi, e daí para casa, na Mangueira. A "magrela" foi um presente que o casal ganhou de uma congregação por ajudar a criar e a reger o coral de que faz parte - a família é evangélica. O esforço nos três turnos do dia valeu - e vale - tanto, que Tchaikovsky foi eleito o representante da turma e entrou no trabalho antes mesmo do curso acabar. O menino continua estudando, fazendo uma espealização de auxiliar administrativo no Senac. "A gente tem dois medos. Um é que ele vá para o Exército. O outro, que ele não seja efetivado na Celpe, depois que terminar o estágio, em dezembro que vem", confessa a mãe.Ricardo é técnico em contabilidade e Jane, auxiliar de enfermagem. Ao contrário do filho, tiveram que largar os estudos no ensino médio para se sustentar. Hoje, nem estudos nem trabalho. Há seis anos, os dois estão desempregados. São remunerados quando os "irmãos da igreja podem contribuir" - daí porque bicicleta fica guardada na sala de estar da casa de dois cômodos.

A música de "Tchai"
Curiosamente, o primeiro contato do famoso compositor Tchaikovsky com a música foi aos cinco anos de idade. A mãe dele usou um órgão mecânico velho que havia em casa para ensinar árias da moda. A vontade da família era que o menino russo fosse advogado. Perto dos 20 anos, porém, ele negou qualquer vocação para o direito e foi estudar música no Conservatório de São Petersburgo, na Rússia. Qualquer pessoa nessa idade é considerada, pelos especialistas, velha demais para estudar música. E ele não fugiu à regra. Aos 21 anos, apesar de conhecer e gostar de Mozart, o jovem não ouvia nem tinha a menor idéia de quantas sinfonias Beethoven havia escrito. Mas ele sabia, assim como Tchaikovsky da Mangueira, o que a música poderia lhe dar. E sabia tanto, que antes de morrer, aos 53 anos, já havia criado balés, sinfonias, óperas e concertos executados até hoje, no mundo inteiro. Costumava dizer que "música é vida interior. E quem tem vida interior não está sozinho". E isso, certamente, Tchaikovsky Johannsen Adler Pryce Jackman Faier Ludwin Zolman Hunter Lins, aos 17 anos, já aprendeu, já pode até ensinar.
Foto: Juliana Leitão

domingo, 29 de junho de 2008

Av. Agamenon Magalhães, sem número. Sem nada

Esta é a história de um poeta, um artesão e um dedicado namorado. Os três dividem o mesmo lar: a rampa do Hospital da Restauração.

Erinaldo, Lourival e Gilberto moram juntos. O endereço é um dos mais freqüentados do Recife: Avenida Agamenon Magalhães, sem número, Derby. Todos os dias levantam com o sol e saem para ganhar a vida, com um cafezinho no estômago. São donos do próprio negócio e o ponto comercial pode ser em qualquer esquina da cidade. Erinaldo é poeta cuja obra cabe numa sacola de ráfia desgastada. "Arte incompreendida" que carrega debaixo do braço e alimenta seu pensamento. As latinhas que seu Sardinha, apelido de Lourival, transforma são brinquedo para a criança de sítio que um dia ele foi. "Deixei a casa dos meus pais quando tinha 10 anos", lembra o artesão. Gilberto, o mais velho deles, sobrevive com a "missão que Deus deixou": cuidar da namorada que, segundo ele, é portadora do HIV.

Também todas as noites os três homens voltam juntos para a casa, sempre cheia de hóspedes e visitantes, 24 horas. Dormir é a única coisa que resta para eles. É o possível num lugar que não tem teto nem paredes. O chão se inclina em rampa. Cozinha, para que, se comida só de vez em quando? Erinaldo, Lourival e Gilberto dormem e acordam no Hospital da Restauração, porque têm medo das ruas. A violência já lhes mostrou a cara nas marquises, calçadas e viadutos.

(continua na postagem abaixo)

Av. Agamenon Magalhães, sem número. Sem nada (primeira parte)

Moldando a própria vida
A panelinha feita com lata usada leva ao mesmo tempo comida e distração para seu Sardinha ou Lourival da Silva Caetano. O apelido ele ganhou do pessoal do Hospital da Restauração, onde dorme e acorda todo dia, por um tempo que nem mesmo sabe calcular. A habilidade com os detalhes da miniatura vem da marcenaria, uma das poucas coisas de lhe dão orgulho nesta vida.
Todo mundo pára para ver as latinhas de seu Sardinha, na rampa do HR. Comprar são outros quinhentos. Cada uma custa um real. "Tem dia que não vendo nada. Mas também tem dia que eu dou tudinho. Faço isso para ocupar minha cabeça. Se eu puder ganhar alguma coisa, é para comprar comida", fala seu Sardinha, enquanto afasta as bitucas de cigarro dos outros com a ponta da faca que corta as latinhas. O cheiro provoca o ex-fumante. Outro vício, diz ele, não teve.

Semana que vem, Lourival vai tentar um emprego numa movelaria do centro da cidade. Aguarda apenas a boa vontade do contador da antiga firma para lhe entregar a carta de referência. "As panelinhas aprendi com um colega de João Pessoa. É um jeito também de tirar o lixo da rua, né? A marcenaria, irmã, aprendi sozinho. E eu ensinei também para um dos meus filhos", orgulha-se. Se tudo der certo na nova firma, a primeira coisa que vai fazer com o salário é achar um cantinho. "Com um emprego, eu vou morar aqui? Não volto para junto dos meus filhos porque a mulher não quer".

A marcenaria deu a Lourival um jeito de moldar a própria vida. "Tenho medo da violência na rua. Mas eu não vejo outro jeito se não for rezar para aquele que tem raiva de você. A coisa mais importante que eu posso fazer é perdoar o próximo". Lourival saiu de Garanhus aos 10 anos de idade. Morava em um sítio, com os pais e sete irmãos. "Sabe como é fazendeiro, né, irmã? Muito bruto". Seu Sardinha tem uma reza diária: "primeiramente, amo a Deus, depois a mim, depois a minha mãe".


(continua na postagem abaixo)

Av. Agamenon Magalhães, sem número. Sem nada (segunda parte)


Um amor a céu aberto
Um dia sim, outro não, Gilberto Souza, de 53 anos, encontra com a namorada Fátima Lobo, 43, no Hospital da Restauração. A sala de estar é a rampa do prédio, onde ele dorme e acorda há dois anos. O cumprimento é rápido e tímido. O casal prefere ficar junto bem ali ao lado, na pracinha do Derby, projeto de Burle Max que já testemunhou muitos amores. O brilho nos olhos dos dois aparece de pronto. É a expressão de uma relação que começou na rua e perdura há 10 anos. A visita só não não acontece todo dia porque Gilberto não deixa Fátima andar de ônibus com freqüência. "Ela tá fraquinha. Tenho medo que ela precise de socorro no caminho. Aí, quem vai ajudar?".

Gilberto não gosta de dar ouvidos aos companheiros de rua e do hospital. "Todo mundo diz que é para eu largar ela (Fátima), mas para mim seria uma coisa muito dura. Até uma freira já me disse para eu me separar dela. Mas eu sinto vontade de cuidar dela para a vida toda". E o que é isso, seu Gilberto, se não amor? Ele mora no HR e Fátima, de favor, com uma ex-empregada dela. O namoro na pracinha dura menos do que uma hora e Gilberto coloca Fátima de volta no ônibus para casa. Viagem mais longa os dois planejam para Belém, no Pará, onde ela tem família. "Vou com ela porque essa pode ser a última missão que Deus colocou para mim, né?".

Pai e mãe Gilberto não conheceu. Essa é uma das poucas certezas que tem. Foi adotado por uma família que diz não existir mais. Se não fosse Fátima, seria ainda mais só, porque quer solidão maior do que nem lembrar da infância? A mochila a tiracolo tem algumas mudas de roupa. Experimentou as ofertas fáceis da rua, como álcool e drogas. O último emprego foi num sítio. Não aprendeu uma profissão, como diz. O trabalho era puxar carroça com papelão e resto de lixo dos outros. Além da viagem com Fátima, Gilberto quer "negociar pipoca e bala, feito o pessoal daí da frente faz. Não culpo ninguém do que eu tenho. Sofro muito, mas eu quero me levantar".


(continua na postagem abaixo)

Av. Agamenon Magalhães, sem número. Sem nada (parte final)

O intelectual da rampa
As histórias que Erinaldo conta dão a entender que ele é personagem dele mesmo. Dorme e acorda na rampa do hospital, estuda sociologia, filosofia, cita e recita Cecília Meirelles, Vinícius de Moraes, Paulo Freire, Shakespeare e ele mesmo. Também faz poemas. E com a poesia que percebe na vida se convence de que precisa de pouco para ser feliz. "Durmo olhando as estrelas e acordo com os bem-te-vis". Erinaldo é autor de dois livros, obra que vende em cópias de uma xerox qualquer.

Erinaldo, hoje com 49 anos, saiu da terra natal, Guarabira (PB), deixando letrado o único filho. "Marcos Vinícius hoje é o diplomata da família. Abandonei meu filho quando ele tinha 11 anos, mas já sabia ler e escrever. Não volto lá porque ainda é muito atrasado", justifica Erinaldo, como o sociólogo que se diz ser. O curso de graduação, segundo ele, foi feito numa universidade de Campina Grande, lá pelos anos 70 ou 80. Ele nem sabe ao certo.

A mesma Guarabira, porém, é uma de suas inspirações: a infância na rua, jogando bola, botão, passando anel nas mãos das meninas e a leitura na escola. E cita mais um: "Ai que saudade que eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais", de Cassimiro de Abreu. "Meu pai, seu Francisco, operário confesso, era um socialista. Minha mãe, dona-de-casa, vive até hoje sentadinha na cadeira de balanço, esperando notícias do filho e dos netos".

Na sacola de ráfia, protegida como se a própria vida fosse, Erinaldo leva livros, que pega emprestado, compra no sebo ou faz "rolo" com os que já tem. O título de cabeceira (sic) é Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire. O da vez é o Nós Dizemos Não, de Eduardo Galeano, sobre a América Latina, miséria e resignação. "Sou um sociólogo que saí da teoria para a prática. Vivo para fazer uma sociedade mais humana. Não sei que nome você dá a isso, se é socialismo ou que, mas é o que eu sonho". O senhor não tem medo das pessoas lhe tirarem isso? Ele responde com Mário Quintana: "Eles passarão. E eu, passarinho".
Textos publicados no Diario de Pernambuco, em 18 de maio de 2007
Fotos de Inês Campelo

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Patrícia, a companheira de trabalho

Amisterdam é o cidadão, mas pode chamar também de Patrícia, que ele atende. Pendurada na traseira da carroça, a manequim de loja que um dia foi lixo na calçada da avenida da Conde da Boa Vista, hoje acompanha o catador no trabalho - e por que não na única alegria da vida dele. Todo mundo na rua repara no bom humor dos dois, que distraem os ambulantes do centro do Recife e os residentes dos bairros chiques da zona norte. A mão apontada para cima da boneca indica que ali vai um filho de Deus.

Com o corpo prateado, a boca pintada de vermelho, a peruca preta chanel e os óculos escuros, Patrícia tem guarda-roupas e tudo. São três mudas, alpercatas, sapatilhas e uma bolsa para a manequim, conta o dono. "Hoje ela tá de branco porque é sexta-feira. E eu já vi ela de vestido de cancan", fala dona Vilma Maria, dona de um fiteiro na rua Dom Vital.

Do mesmo jeito quando o pai o batizou, Amisterdam não sabe de onde tirou o nome da boneca. "Ah, logo quando eu achei ela, faz uns quatro meses, já disse logo que ia chamar ela assim. Eu queria chamar de mulher, entendeu? Mas nem lembro se foi da televisão que eu inventei", conta o catador, que percorre sem atropelos as vias estreitas do centro da cidade. Sempre que passa na rua da Praia, Amisterdam encontra uma homônima. A festa é grande quando o catador pára para cumprimentar a operadora de máquina Patrícia da Conceição. Garante Amisterdam que o nome da boneca também não foi inspirado nela. Já Patrícia, a de verdade, diz que só conhece o catador de passar na rua.

Dona Dinalva Alves, que vende ervas numa barraca em frente ao mercado de São José, já até medicou a boneca contra gripe. "A gente tem que brincar, para poder agüentar o dia-a-dia. E esse cara trabalha assim, fazendo a gente rir toda vez que passa aqui no centro. Merece ter mais", diz a comerciante.

A economia do catador - Amisterdam precisa catar 300 garrafas para ganhar R$ 10,00. Um quilo de garrafa PET custa, em média, R$ 0,30. Uma garrafa PET de dois litros pesa cerca 54 gramas. O catador tem que juntar 100 quilos de papelão para ganhar R$ 10,00. Um quilo de papelão vale menos ainda do que a PET: R$ 0,10.

Recife tem 1,5 milhão de habitantes. Essa população produz duas mil toneladas de lixo, por dia. Tudo isso vai para o Aterro da Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes. Existem 2,5 mil catadores, segundo estimativa da Emlurb (Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana) para o Grande Recife. Apenas 120 deles são cadastrados na prefeitura.

(continua no post abaixo, Amisterdam, o cidadão)

Foto: Inês Campelo.

Amisterdam, o cidadão



Escrito assim, com "i" no meio e "m" no final, Amisterdam não poderia ser mais um. Sai todo dia com Tiêta, a égua esquelética que comprou à prestação. O percurso começa e termina em Peixinhos, na periferia de Olinda, onde os dois moram. Rodam pelo centro e zona norte do Recife. O bicho puxa a corroça, enquanto o homem cata o lixo deixado nas calçadas. Dão expediente no final da tarde e à noite, para aproveitar o inútil do comércio. Do ofício sobrevivem ele, a esposa Joani, os quatro filhos dela, outra menina do casal e, claro, Tiêta. Somente R$ 10 é o que ele ganha por juntar 300 garrafas PET de dois litros, cada. E nem sempre consegue isso numa viagem só. Filho único e sem parentes para esperar ajuda, herdou dos pais a "honestidade", orgulha-se o catador. Amisterdam não sabe por que foi batizado com esse nome - tampouco onde fica a capital holandesa no mapa mundi. Pouco importa. Ele prefere ser chamado de "cidadão" e não de cidade.


Tiêta custou R$ 500, há oito meses. Com o bicho, Amisterdam vai mais longe e leva mais peso. "Tinha coisa que ganhava e não conseguia levar, feito ferro", conta o catador. Mas se a égua morresse hoje - o que não seria surpresa diante do porte - ele teria prejuízo. O catador ainda não tirou o investimento. "Os depósitos pagam muito pouco pelo material". Quando tem dinheiro, ele compra o farelo de Tiêta. Se não, pega o capim do mangue perto de onde mora, para alimentar a égua. "Se ela não comer, eu não trabalho", conta o catador. "Comprei essa égua foi mesmo para pegar frete com a carroça".


Lar - O barraco em madeirite onde Amisterdam mora com seis pessoas ele também comprou à prestação. Mas esse bem já está pago. Foram dois anos para chegar a R$ 1 mil. "Comecei a pagar quando entrei. As vezes eu dava de R$ 5, às vezes de R$ 50. Não tinha dia nem mês certo. E já fiquei sem pagar. Aí eu ia lá, conversava com a mulher (que vendeu a casa) e acertava depois", lembra o catador. O lar é um vão só, não há divisória de sala, cozinha, quarto e banheiro. Mas tem o básico para o cidadão Amisterdam: luz, água e colchão para todo mundo. A coisa fica "boa em casa", diz ele, quando tem "alimento". Se falta comida, o catador espera o lixo acumular, para levar ao depósito que pagar mais.


Quando muito, Amisterdam consegue juntar 10 quilos de garrafa PET, por semana. "No tempo de festa, carnaval, festa do morro (da Conceição) e São João, é quando eu apuro melhor", fala o catador, que nunca teve carteira de trabalho assinada nem quer ter patrão. "Trabalhar não faz vergonha a ninguém. Emprego tá difícil, mas tem pão onde a gente for. Só não quero levar calote de patrão, como eu já levei quando fui ajudante de pedreiro. E se num dia a gente tá empregado numa loja, numa fábrica, no outro tá fora".


O catador de 36 anos, nascido na Encruzilhada, assina o nome próprio completo, Amisterdam Candido da Silva, com os devidos "i" do meio e "m" do final. Só estudou até a quinta série e lê com dificuldade o que vê escrito no papelão que recolhe nas ruas. Somente um menino da família está na escola. O mais importante para Amisterdam talvez ele tenha aprendido com a mãe. "Ela dizia que uma ovelha ruim bota 10 a perder. Graças a deus não dei desgosto nenhum a ela. Hoje, se a senhora me perguntasse se eu queria entrar na vida ilegal ou morrer, eu dizia prefiro morrer. Não tem coisa melhor no mundo do que ser chamado de cidadão".

Foto: Inês Campelo

domingo, 22 de junho de 2008

Quer comprar? Expedito do Beco tem para vender.


Se for com a letra A, tem arreio, arroz e água sanitária. Sendo B, balde, bujão e bule. Com C, o freguês encontra chocalho, chicote e cano. No D, dedal, diadema, dosador. E segue o passeio pelo alfabeto completinho, porque quase nada falta na bodega de Expedito do Beco, figura ilustre em Triunfo. Se duvidar, até para W e Y se encontra coisa no lugar, que existe também como um ponto turístico-antropológico, digamos assim, da cidade do Sertão do Pajeú, distante 451 quilômetros do Recife e mais conhecida pela temperatura amena - de média anual de 20 graus centígrados. E o danado é que Expedito do Beco vende e troca tudo na quantidade que o cliente quiser. Se o cidadão pede somente um copo de óleo de cozinhar, ele leva. "Até uma banda de chiclete eu vendo. Mas eu cobro por um inteiro", brinca o comerciante.

Prosa é o que Expedito do Beco dá de graça. Basta chegar na bodega e puxar assunto. É provável que o visitante tente matar a curiosidade de primeira: quantos artigos tem na bodega? "Quantos artigos? Ah, de número eu não sei. Mas, se for perguntando coisa por coisa, eu digo se tem ou não", confessa o comerciante de 79 anos, batizado Expedito Pereira do Nascimento, natural de Triunfo mesmo. A resposta de Expedito logo faz sentido. Quem bota os pés dentro do casarão de número 43 na esquina da Avenida José Bezerra, vê que nem o dono do Pão de Açúcar e do Extra, Abílio Diniz, daria conta do estoque.

"O mais esquisito que eu tenho aqui é um capacete". Mas esquisito mesmo é Expedito dizer isso, numa cidade onde muita gente usa motocicleta e numa bodega que tem para vender casco de bebida que não existe mais. Bom, o equipamento de proteção, usado, custa R$ 10. Os chocalhos também estão a precinhos módicos: R$ 3 e R$ 6. Pirulito é o que há de mais em conta: R$ 0,15. "Se o camarada quiser trocar, eu troco. Desde que a coisa que ele trouxe vá ter serventia para alguém. Troço véio, feito chaleira, é o que mais sai. Não posso deixar é o dinheiro escapar", conta Expedito do Beco. O sobrenome e apelido homenageiam o aperto do comércio, que existe há 25 anos no mesmo ponto.

Deus abençoe - A bodega é movimentada. Vai cliente e vai gente somente prosear com Expedito ou a filha, Roldânia, que ajuda no balcão. "A bagunça começa na minha casa. Meus filhos foram batizados de nomes estranhos. Tem Rílquia, Rislaine, Ríntia e Rosivan, que é uma mulher, mesmo sendo masculino. Só escapou Romildo", diverte-se o comerciante, enquanto Roldânia despacha uma freguesa que precisa de um pedaço de mangueira. A esposa de Expedito, a propósito, é cúmplice nessa história. Dona Maria é gentil já no sobrenome.

Em fim de tarde, quando o vaivém de mototáxi se acalma, a grade de garrafa serve de banquinho na roda de prosa ou na contemplação da vida local. Triunfo passa bem na porta da bodega: estudantes a caminho de casa, donas-de-casa em direção à padaria - que se conta numa mão quantas existem -, trabalhadores da agroindústria arrastando o passo, o sossego de uma cidade pequena, que tem cerca de 1% da população do Recife (1,5 milhão). Por isso e pela prosa Expedito do Beco não cobra. "Deus abençoe essa bagunça". É o que diz a plaquinha em madeira pendurada no balcão.

Serviço
Bodega de Expedito do Beco.
Avenida José Bezerra, 43, centro.
Telefone: (87) 3846-1271.
Triunfo, Sertão do Pajeú, Pernambuco, a 451Km do Recife.
Acessos: BR-365 e BR-232 (via Serra talhada).
População: 16 mil habitantes, aproximadamente.
Área: 192 quilômetros quadrados.

sábado, 21 de junho de 2008

O início

Começou. As histórias de vidas ordinárias, que de comuns nada têm, não se esgotaram nas páginas de um jornal e vieram bater aqui, num blog. A partir de hoje, esse será o suporte de reportagens (ou crônicas?) que já embrulharam peixe e de relatos que o noticiário não publicou sequer em rodapé. Amanhã estréia a primeira.